DEDO DE PROSA - O aprendizado da infância
Aluna de escola pública, sempre preferi frequentar as aulas da manhã. Mesmo nas séries iniciais, não me importava de deixar a cama cedinho para enfrentar a rotina das aulas. Tinha meus motivos. O principal deles é que, assim, tinha uma tarde quase inteira para as brincadeiras. Com exceção do período após o almoço, utilizado para as lições de casa, o único compromisso era com o pôr do sol. Ele indicava a hora do banho e o momento de sossegar para aguardar o jantar.
Bola queimada, passeios de bicicleta, bate-papos à sombra de uma árvore. Tudo era diversão em um tempo que passava devagar. Criança era criança e aprendíamos a ser adultos brincando. O final de semana chegava naturalmente, sem a ansiedade típica dos seres que vivem assoberbados de tarefas. Nossa relação com as horas era de cumplicidade, e não de guerra.
A preferência pelas aulas matutinas também era explicada pela clientela predominante. Eram as turmas da manhã que recebiam os alunos da zona rural. Pequenos guerreiros, que acordavam ainda mais cedo para estudar. Mas que nem por isso perdiam a disposição para nos ensinar brincadeiras da roça, passadas de geração para geração. Se por um lado os cálculos e regras custavam a ser entendidos por aqueles pequenos caboclos, as soluções para os problemas da vida surgiam com uma naturalidade estonteante.
Por essas e por outras, é angustiante conviver com adultos mirins que não sujam os pés na terra e que desde muito cedo travam uma batalha com o tempo, sempre insuficiente para tantos compromissos. É preocupante perceber que tantas horas são perdidas na companhia de máquinas, e que os mais longos bate-papos são feitos no mundo virtual. É temeroso se deparar com crianças que falam várias línguas, se vestem como adultos, mas nunca subiram em uma árvore ou pularam corda com os amigos.
Como alertou a pós-doutora em psicologia Cleide Vitor Mussini Batista, em entrevista publicada ontem na FOLHA, ''brincar é fator determinante para o bom desenvolvimento emocional, cognitivo e social. Brincar é coisa séria e possibilita articulações significantes. Por meio da brincadeira a criança elabora e faz ligações dos acontecimentos de sua vida.'' Para os que são do tempo em que infância nada tinha a ver com responsabilidades, fica a certeza que tem muita criança por aí precisando ganhar o direito de ser, simplesmente, criança.
Silvana Leão é jornalista na FOLHA





