DEDO DE PROSA - No campo de terra e de grama
Ele nasceu comendo poeira de sítio. Pai, avô, tio, os homens da família eram agricultores e o normal seria o pequeno se interessar pela terra logo cedo. Não deu outra. Assim que começou a falar, gritava a marca da colheitadeira ao reconhecê-la trabalhando no campo. Sabia de cor as cores das diferentes marcas de tratores e o que era soja e o que era milho na plantação. Maiorzinho, já acompanhava o pai na lavoura e trocava qualquer brincadeira de criança pela chance de ajudar o avô a regular o maquinário para a colheita.
Férias eram esperadas com ansiedade, pois ele poderia passar o dia inteiro no sítio. Vestia a calça jeans surrada, a camiseta velha, calçava as botas, imitando o pai, e pegava carona na caminhonete vermelha rumo ao estradão empoeirado. Ele passava o dia no trator, na colhedeira, no caminhão: onde a curiosidade aguçasse, lá estava ele. A mãe preferia que ele brincasse com os amigos da escola, algo menos perigoso para idade dele, mas que nada, o choro corria solto se ele não estivesse no sítio.
Com o passar dos anos, o menino só fazia ajudar o pai no sítio, ainda que sem idade suficiente para trabalhar na roça. Não tinha jeito, ele parecia ter nascido para a coisa. Daí veio a vontade do pai de arrendar mais terra e melhorar o ganho da família. Pai, mãe e filho partiram para um município maior, onde o sítio virou fazenda e o trabalho multiplicou.
Na cidade grande, o pequeno teve de se adaptar à nova escola, novos colegas e ao fato de o sítio não ser logo ali, do lado de casa. Como o pai passava a semana na fazenda, a mãe resolveu que o pequeno precisava praticar esportes depois da aula e o matriculou numa escolinha de futebol. Ele trocaria o campo de terra vermelha pelo campo verde do gramado. Ficaria debaixo das traves, defendendo o gol. E não é que o danado gostou de jogar futebol. O negócio dele é mesmo estar em campo.
A vida, às vezes, coloca a gente onde devemos estar e não onde queremos estar. Mas mesmo com a escola, o futebol e os jogos de computador - seu preferido tem fazenda como tema - o pequeno ainda quer saber tudo o que acontece no sítio. E já não fica mais só olhando os adultos trabalharem nas férias. Ele continua calçando as botas, só que agora dirige o trator sozinho, colhe trechos inteiros de lavoura e é capaz de citar o valor certinho da saca de soja e de milho.
Se alguém perguntar o que ele quer ser quando crescer, certamente dirá produtor rural, como o pai e o avô. E como seu forte é mesmo o campo - de terra ou de grama -, o time da pelada dos fins de semana também terá o goleiro garantido.
Mariana Guerin é jornalista em Londrina





