DEDO DE PROSA - Meu último ano na escola


DEDO DE PROSA - Meu último ano na escola
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Não estava em meus planos aposentar-me naquele ano, mas os fatos foram acontecendo que não tive alternativa. De manhã, trabalhava na E. E. ¨Evaristo da Veiga¨, no centro da cidade, perto de casa; à tarde, como eram aulas extraordinárias, quase todo ano, era uma escola diferente. Peguei três turmas de 5ª série e uma de 6ª, alunos de 10 a 16 anos, numa escola não muito afastada do centro, porém com uma realidade social diferente, pessoas simples e carentes. Fiquei sabendo que algumas professoras logo largavam as aulas; outras viviam de licença porque não aguentavam a indisciplina e a falta de respeito de alguns alunos. Eu ia de carro, mas um dia resolvi ir de ônibus. Estava no ponto pra vir embora, o motorista me disse:


- Professora, pegue na volta porque eu vou passar na vila toda e não é bom a senhora ir. É perigoso. - Agradeci, atravessei a rua e fiquei esperando seu retorno.




Havia duas turmas difíceis, de alunos maiores e repetentes. Tinha que ser muito criativa, levava gibis, livros da coleção Vagalume para lerem. Às vezes, preparava um conteúdo, chegava na sala e não conseguia dar. Então falava do amor de Deus, da família, perguntava sobre os problemas que tinham e todos queriam falar. As coisas que eu ouvia e falava:


-  A senhora parece que dá aula de religião, é a única professora que reza na primeira e última aula e vive falando de Deus...


- A senhora é rica, né, tem carro; meu amigo disse que a senhora mora em apartamento - Então, respondia: Não, não sou rica, apenas estudei muito e trabalho. Vocês também podem ter, basta estudar e trabalhar, porque é através do estudo que poderão mudar e melhorar de vida, ter um bom trabalho.


-Ih, professora, eu não gosto de estudar. Só venho na escola pra minha mãe receber bolsa-família.


- Eu também. E só venho porque não gosto de lavar louça, banheiro, limpar a casa... Por mim, ficaria na televisão o dia inteiro.


- A senhora nunca falta - Daí eu falava de responsabilidade, do amor ao trabalho.


- Professora, a senhora viu na tevê hoje, que prenderam um homem roubando fios num poste? É o meu pai – deu uma risadinha e continuou – mas logo ele sai da cadeia porque tem um advogado muito bom.


Fazendo a chamada, notei que um aluno estava faltando e perguntei se alguém sabia de alguma coisa. Um menino levantou a mão e respondeu:


- É que no sábado ele foi visitar a avó em Cambé, foi roubar o mercadinho e está preso. Mas não se preocupe, professora, ele sai logo porque é ¨de menor¨.


Esses eram os meus alunos, sem grandes perspectivas, de sonhos modestos, mas que animavam as festinhas da escola com suas danças e músicas de ¨rap¨.


Nas férias de julho, pensei muito e resolvi que era hora de parar, deixar o lugar para os mais jovens. Em agosto fiz o pedido, mas a aposentadoria só saiu em fevereiro. Enfim, aquele ano foi desgastante, desafiador; conheci e vivenciei uma realidade de vida diferente da que estava acostumada.




IDIMÉIA DE CASTRO é leitora da FOLHA.

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