DEDO DE PROSA - Meu último ano de internato
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de março de 2019
Idiméia de Castro - Leitora da FOLHA 
Era o ano de 1964. Meu irmão Idivar e eu estudávamos internos em Assis (SP); ele, no Seminário Diocesano e eu, no Colégio Santa Maria. O colégio era dirigido pelas Irmãs Vicentinas e funcionava internato e externato, do Jardim da Infância ao Curso Normal. Recebia meninas que iam só estudar - como a Ivone Almeida e eu, de Sertaneja - e aquelas que depois iam ser freiras. O dia a dia no internato não diferenciava de outros colégios internos. De manhã, estudávamos o 1º ano do Normal; à tarde, fazíamos tarefas, trabalhos e, à noite, depois do jantar, íamos para o salão ouvir músicas e dançar rock, twist.
A irmã Natália era muito brava; dava aulas de desenho e trabalhos manuais. Desenhava na lousa com as duas mãos ao mesmo tempo. Eu a admirava por isso. Às quartas-feiras, a irmã Lúcia passava filmes. Eu me lembro do “Feitiço havaiano”, “Uma cruz à beira do abismo”, “Imitação da vida”, “Bonequinha de luxo”, os filmes da Sissi e muitos outros. Aos sábados, descíamos a avenida Rui Barbosa, a principal de Assis, íamos passear, depois, passávamos em frente ao Cine São Vicente e ao Cine São José, víamos a fila de pessoas que iam assistir aos filmes, comprávamos chocolate numa bomboniere em frente, depois voltávamos para o colégio.
“As festas juninas do colégio eram muito animadas e recebíamos muitos correios-elegantes”
À noite, a irmã ficava andando pelo dormitório até todas as meninas irem para suas camas. Então, apagava as luzes e quando tudo silenciava, ela ia para a capela fazer as orações da noite com as outras religiosas. Não demorava muito, ouvíamos a voz do Luiz Adriano fazendo serenata para nós. Era época das músicas italianas e eu me lembro de “Io che amo solo te”, do Sérgio Endrigo; “Legata a un granello de sabbia”, do Nico Fidenco; “Roberta”, do Peppino di Capri; músicas da Rita Pavone, de Gianni Morandi, “O relógio”, “La Barca”, “Au revoir”, “Moon river” etc. Às vezes, ele vinha acompanhado de dois amigos, “Os Castanholas” e tocavam “Apache”, “La Bamba” e muitas outras. Sou apaixonada por um bom filme e uma boa música.
As festas juninas do colégio eram muito animadas e recebíamos muitos correios-elegantes. Havia os campeonatos de vôlei, os bingos que o 3º ano do curso normal sempre fazia para arrecadar dinheiro para a formatura.
A cada 15 dias, eu ia para casa, em Sertaneja. Quando dava certo do Idivar vir junto, era muito gostoso. Brincávamos muito, e uma das brincadeiras era reunir nossos irmãos ao redor da mesa da cozinha e ele, como seminarista, ia rezar a missa. Colocávamos uma toalha grande em suas costas, minhas irmãs e eu colocávamos véu, as nossas hóstias eram fatias de pão caseiro que a mamãe fazia, cortadas em cubos. A missa ainda era rezada em Latim e sabíamos responder. O Idivar falava: “Dominus vobiscum!” e respondíamos: “Et cum spiritu tuo...”. E aí vai... Não era brincadeira, levávamos tudo a sério. Meus pais ficavam muito contentes de verem seus dez filhos reunidos em casa.
Duas coisas tristes aconteceram nesse ano: a morte da minha avó de Minas e a tragédia na balsa do Rio Ivaí com aquela família que ia trabalhar em nosso sítio em Barbosa Ferraz. Apesar de tudo que aconteceu, ainda foi um ano importante da minha vida.

Idiméia de Castro, leitora da FOLHA.


