Presidente Prudente, a cidade onde nasci e fui criada, lá nos confins do Oeste Paulista, só tem uma unanimidade: calor, calor, calor. Os nativos estão até acostumados. Já os forasteiros desavisados costumam deixar a região com a certeza de que se trata de um dos locais mais quentes do mundo.
No termômetro da avenida Washington Luiz, pertinho da Santa Casa, não é raro o visor exibir 40 graus. Quando isso acontece, a única maneira de driblar a falta que faz um ar condicionado em casa é arranjar qualquer pretexto para ir ao supermercado. Prudentino legítimo não tem pressa para fazer compras. Sabe até que o melhor lugar do estabelecimento é no corredor dos produtos congelados.
Mães de primeira viagem cujos bebês vão nascer perto do verão perdem tempo e dinheiro fazendo o enxoval. Em poucos meses, frustradas, descobrem que fralda e maizena para evitar ''grosseiro'' são os únicos acessórios indispensáveis para os filhotes. A tendência fashion continua pelos primeiros anos de vida. Prudentininhos e prudentininhas verdadeiros passam os dias de short sem camisa, na varanda, de preferência brincando de tomar banho de mangueira.
Os mais afeitos a aventuras incrementam a brincadeira escorregando de barriga no piso de cerâmica ensaboado com um pouco de sabão em pó. Sorte mesmo é quando a mãe deixa encher a piscina de lona para brincar com os amigos. No final do dia, se não tem nada de bom na geladeira, a criançada não se aperta. O clima quente garante safras generosas de mangas, goiabas e jabuticabas no quintal.
Prudente é uma cidade que não tem vento. Por isso, a sensação de abafamento é constante, até mesmo de madrugada. Nos dias de sorte, porém, o abafamento se converte em rápidas tempestades de verão. Quando isso acontece, muita gente aproveita para se refrescar na chuva, ao invés de sair correndo para se proteger na marquise mais próxima. E as crianças, as mesmas que estavam brincando com o esguicho na varanda, desligam a torneira e vão se molhar na água que cai do céu.
Dizem que na cidade é possível fritar ovo no asfalto. Nunca fiz a experiência, mas já vi, em dias escaldantes, a chuva evaporar antes mesmo de chegar ao chão. Azar de quem está fora do supermercado nesta hora. Afinal, pior que sol quente é o mormaço fervente depois de um chuva rápida que, paradoxalmente, cozinha até os pensamentos do peão.
Carolina Avansini é repórter da Folha de Londrina

mockup