Durante muitas tardes da minha infância, ao término das tarefas escolares ou das brincadeiras com os amigos, eu sempre comia uma boa fatia de pão caseiro coberta com marmelada. Dá água na boca só em lembrar das marmeladas que minha mãe fazia. Naqueles tempos havia o hábito de se fazer marmelada em casa, pois não existiam produtos industrializados como margarina ou maionese.
Mas o que eu comia era mesmo marmelada? A resposta é não, pois os doces recebem diretamente das frutas as suas denominações. Portanto, o que minha mãe fazia era pessegada, figada, uvada e marmelada. Também aprendi ao longo dos anos a diferenciar a marmelada da geleia. Embora o processo de elaboração seja parecido, a marmelada, também conhecida por chimía (do alemão schmier) é mais densa, consistente, feita com a polpa e cascas da fruta, enquanto a geleia é mais leve, transparente, feita com o suco da fruta.
Morávamos no Rio Grande do Sul, numa região produtora de frutas de clima frio: pêssego, ameixa, maçã, figo, uva, além do marmelo, é claro. Tais frutas eram abundantes, porém, a chimía que eu mais gostava era a bananada. Mas a banana não era produzida na região, por isso vinha de Santa Catarina. Meu tio Nelson Zadra (Vavá) possuía um depósito de bananas e a cada mês um caminhão descarregava uma centena de cachos de bananas para abastecer a cidade. Alguns lotes da fruta passavam do ponto, ficavam muito maduras e não eram vendidas, sendo entregues em nossa casa para que minha mãe, Dona Rosalina, fizesse a bananada.
E para fazer a bananada várias mulheres da vizinhança vinham ajudar no trabalho. Eram utilizados cerca de 60 quilos da fruta, que ficavam cozinhando em tachos durante duas ou três horas. As mulheres se revezavam no manuseio de uma enorme pá para mexer a fervura. Por precaução, as crianças ficavam bem distantes do fogo apenas observando o trabalho, na expectativa de que chegasse logo a hora mais deliciosa daqueles dias.
Assim que o cozimento esfriava, as mulheres iam colocando o doce em diversos potes de vidro. Fosse bananada, figada ou uvada, sempre sobrava um pouco nos tachos e alegria da criançada consistia em "raspar a marmelada". Para tanto, cada um já trazia sua colherinha preferida.
Quem não tinha colher utilizava os próprios dedos, pois o que ninguém queria perder era a gostosura daquele momento.

Gerson Antonio Melatti é leitor da Folha de Londrina.

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