Nascida na metrópole, ela não sabia muito bem o que era terra vermelha. A única coisa remotamente parecida com natureza com a qual ela tinha contato quando não estava na escola ou vendo desenhos em frente à tevê eram as idas ao parque com o pai e a irmã menor para brincar no balanço.
Mas quando o sol começava a esquentar e as férias de verão apontavam, era hora de visitar os tios no interior. A mãe arrumava as malas, preparava o lanche e acomodava os travesseiros no banco traseiro do carro, enquanto o pai ajeitava tudo no porta-malas, colocava o boné na cabeça e partia com a família para a cidade de colonização italiana, população minúscula e nome diminutivo.
Na viagem de cinco horas entre a capital e a ''colônia'', a menina acompanhava a aparição das estrelas ao som de clássicos dos anos 60. Ela achava o máximo como o céu mudava de cor e de repente brilhava à medida que eles se afastavam da metrópole. Se no dia a dia ela estava acostumada a ver prédios por toda a parte, nas férias a paisagem era uma vastidão só. Dava até para imaginar que o horizonte era mais do que uma parede de arranha-céus.
Como o dinheiro era curto e a visita ao lado italiano da família acontecia uma vez ao ano, ela tratava de aproveitar ao máximo os poucos dias que teria para andar de bicicleta sem rumo, do nascer ao deitar do sol. Quando o carro cruzava a primeira lombada, depois de atravessar a avenida repleta de casarões imponentes, e o pai tirava o boné, ela soltava o cinto e pulava de ansiedade no banco de trás.
Depois do abraço e da macarronada que a esperava, ela, a irmã e a prima preferida subiam nas bicicletas e percorriam a cidadezinha absorvendo tudo ao redor. Iam ao sítio comer manga no pé, brincavam no clube, montavam barraquinhas no quintal, onde faziam piqueniques gostosos nas tardes quentes. Mas o momento mais esperado era a ''Via Sacra'', quando as meninas faziam paradas estratégicas na casa das tias.
Na primeira parada ganhavam chá com bolachas, na segunda bolo gelado de coco, na terceira pão fresquinho com manteiga caseira e geladinho de chocolate. Entre uma tia e outra, carregavam mais uns primos nas bicicletas e seguiam a brincadeira.
Todo dia era igual e ainda assim ela aproveitava para pisar na grama descalça, se ralar num tombo da bicicleta ou subir na árvore (ou pelo menos tentar). Era um escape mágico para quem crescia cercado de grades. Já adulta, ela foi morar com a prima preferida no interior e as duas viraram pé vermelho. Já a irmã mais nova foi viver em meio aos índios no coração do País. Mesmo seguindo caminhos tão distantes, aquelas férias de verão certamente ainda aquecem as lembranças do trio: do gosto do pão caseiro aos tombos nas pedaladas.
Mariana Guerin é jornalista na FOLHA

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