Todos os dias, a caminho do trabalho, passo em frente a uma casa antiga, com jeito de casa de vó. Sempre tenho uma sensação boa ao olhar para o seu jardim e suas espécies encantadoras, que andam esquecidas nos projetos paisagísticos modernos. Nas camélias, rosas, beijinhos e margaridas vejo as cores e sinto os cheiros da infância.
Outro dia me deparei com um canteiro cheio de onze-horas, plantinha caipira, de flores com tons intensos, que se abrem com o sol forte do final da manhã. Desacelerei os passos e reduzi o ritmo daquele dia corrido para degustar uma outra lembrança quase esquecida: a mania pré-adolescente de transformar qualquer recipiente, como latas de leite em pó pintadas com tinta óleo, em vasos cheios destas simpáticas florzinhas, que eram pendurados nas jabuticabeiras do jardim. Para isso eu tinha um ajudante de peso, que também adorava inventar moda com suas orquídeas e sujar as mãos de terra: meu pai. Despachante e contador por formação, era um caboclo de coração.
Antes de conseguir comprar seu pequeno sítio, ele transformou um terreno ao lado de casa em um verdadeiro pomar. Gostava tanto de estar entre os pés de manga, acerola, laranja e poncã, que um dia resolveu: ali seria também seu reduto de vida saudável. Na data de metragem generosa, fez uma pista para andar de bicicleta nos finais de tarde. Eu, que também tinha nas duas rodas minhas outras pernas, constantemente o acompanhava no circuito improvisado. Devia ser estranho ver, da rua, as cabeças de pai e filha movendo-se rapidamente atrás do muro que cercava o terreno. Não nos importávamos. Alheios às indagações, simplesmente saboreávamos o prazer de cada pedalada.
Às vésperas do Dia dos Pais, o jardim da casa que fica no meu caminho me fez lembrar destas pequenas alegrias. Há quase 18 anos convivo com uma imensa saudade do meu pai, e uma das formas de não me deixar abater por ela tem sido tentar perpetuar seus valores de homem simples, que nasceu e morreu no campo. Oxalá todos os pais deixassem legados tão valiosos. Quem dera neste domingo todos os filhos pudessem compartilhar desta sensação de amor, respeito e confiança mútuos que um dia tive o privilégio de sentir.
Silvana Leão é jornalista da Folha de Londrina.

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