Cada vez que vejo uma jabuticaba lembro da minha bisavó. Esta época do ano é muito sugestiva para recordar cada final de tarde que meus primos e eu passávamos na casa da ''vozinha'' - como carinhosamente a chamávamos - brincando e chupando a fruta tirada diretamente do pé.
Há muitos anos a 'bisa' morava na cidade, lá em Assis. A história na pequena cidade começou quando o 'biso' resolveu fazer as malas e as cuias, juntar os oito filhos e a mulher e tentar algo novo longe dos plantios e colheitas, porque a vida na roça não andava nada fácil. Alguns anos depois da mudança, um infarto o levou. Com os filhos já criados, a vozinha foi morar com a tia Cida, a mais velha, casada e grávida do primogênito.
Mesmo há muito tempo longe do campo, a vozinha Ana não perdia os costumes de lá. A jabuticabeira, cultivada com muito carinho todos os dias, era uma prova do cuidado com a natureza que ela trazia como herança de família. Era ali, em volta da árvore, que nós brincávamos o dia todo até que as nossas mães viessem nos buscar.
Entre uma brincadeira e outra, a gente enchia a bacia da fruta e a barriga porque comíamos sem medida, mas sempre com o alerta ''crianças, não engulam a semente para não entupir''. Aquele ensinamento era como uma lei para nós, que não entendíamos o que queria dizer, mas tínhamos medo de não segui-lo.
Aqueles dias eram como ritos para nós. Assim como uma celebração litúrgica, sempre muito bem conduzidos e organizados: chegávamos, pedíamos a benção da bisa, tomávamos café da manhã com ela e seguíamos para as brincadeiras. Após o almoço, mais diversão: trepa-trepa, esconde-esconde, duro ou mole, queimada, bets...
Depois de muita canseira (e jabuticaba) chegava a hora do banho e de ganhar o presentinho da bisa. Para as meninas, ela entregava bonecas de pano, confeccionadas com os retalhos que juntava durante o ano. Não tinha uma neta que ficava sem ganhar o agrado da vozinha. Já para os meninos, ela fazia caminhõezinhos com os materiais recicláveis que conseguia guardar num cantinho do guarda-roupa. Era tudo muito simples, mas repleto do carinho da nossa querida vozinha.
Por tudo isso, não tem como olhar para uma jabuticabeira e não me lembrar dos maravilhosos dias que passei na casa da bisa Ana.
Aline Vilalva é jornalista na Folha de Londrina.

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