Imagem ilustrativa da imagem DEDO DE PROSA - Há heranças e heranças...
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Histórias de famílias bem sucedidas que se desmantelam no momento da partilha de bens, após a partida do patriarca, são bastante conhecidas em várias partes do mundo. Quem assiste a cena, muitas vezes fica perplexo pela revolução que o dinheiro pode provocar. Mas há também histórias felizes de quem sabe repartir. Ou mesmo de causos inusitados, como o que seu Luiz, o dono do mercadinho da vila, me contou outro dia.

- Fez um ano ontem que perdi a herança que meu pai me deixou!, - disse ele em tom de melancolia.

Curiosa, tentei encompridar a conversa.

- Eu nem sabia que o senhor tinha tido mais bens, além do mercadinho?!

- É...! Bem da verdade, nem era coisa de se ficar rico. Era um bem que nem sei estimar o valor.....Era um galo, que pertencia a meu finado pai, seu Tertuliano.

Antes mesmo que eu expressasse qualquer reação, ele emendou.

- O bicho cantava muito, era bonito de se ver, de se ouvir! Ainda mais quando os netos chegavam da cidade e corriam para a porta do galinheiro. Eles corriam em disparada pra casa do biso, mas nem para pedir a benção chegavam perto dele. A visita da molecada era mesmo para o galo, para assistir o show que ele dava. Enchia o peito, levantava as penas da crista e do rabo e cantava sem parar, como se soubesse da admiração de sua plateia. Uma porção de melodias! - contava seu Luiz, com o rosto perdido nas lembranças.

- Quando meu pai faleceu - continuava ele sua história -, o galo já nem tinha mais voz. Era como se tivesse calo nas cordas vocais. Mas nem por isso deixava da cantoria rouca quando tinha as crianças para lhe escutar. Como minhas irmã não despertaram interesse pelo bicho, trouxe ele aqui para casa, junto com outras galinha que meu pai tinha. Queria criá-los, para aumentar a família do galo. Me valia mais que qualquer riqueza que tivesse herdado!”, garantiu seu Luiz.

Ousei, então, a perguntar-lhe que fim havia dado ao galo cantor.

- Nas férias, meus netos vieram me visitar e trouxeram o cachorro deles, um yorkshire, miudinho, mas muito encrenqueiro. E não é que o danado atiçou os dois cachorros do quintal, que já estavam acostumados com galo! Meu irmão foi colher umas manga no pé que fica lá perto do galinheiro e esqueceu de fechar o portão. Aí, os três cachorros invadiram o lugar e foi aquele galinicídio.... acabaram com o galo e outras cinco galinhas.... Do meu pai, seu Terto, restaram apenas as lembranças e a saudade! Dei três dias para que sumissem com os cachorros do quintal. Mas, no fim, tive de voltar atrás e reconhecer que meu pai e o galo não estavam mais aqui e os netos, que me dão muita alegria, iam achar outro motivo de diversão.

Após o relato de seu Luiz me vi na obrigação de rever meus conceitos. Enquanto me esforço no trabalho pensando em reunir alguns bens para deixar uma vida mais confortável a meus filhos, a maior herança, com certeza, está no coração e nas coisas simples que vida em família pode produzir.

Célia Guerra, jornalista da FOLHA

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