DEDO DE PROSA - Frango Atropelado
Todas as terças e quintas-feiras, eu colocava a mochilinha nas costas e caminhava até o clube. Quando se é criança, o mundo é muito maior e aquele era meu mundo, inabalavelmente feliz. Subia a montanha e me punha encantada com cada singularidade. Eram outros tempos, os anos 1980. Hoje em dia, não se pode deixar crianças caminharem sozinhas para lugar algum. Que triste! Quanta aventura e descoberta eu teria perdido sem aquelas manhãs.
Certa vez, quando eu já conhecia meu caminho de cor, mudei. Peguei um atalho. Não atalho porque, no fim, o caminho era mais longo. Mas nele haveria coisas novas para conhecer. E foi assim que surgiu a maior e mais longa dúvida da minha vida. Bem próxima da viela que dava acesso ao clube, havia uma casa verde com portão branco, em cujas grades, uma placa: "Vende-se Frango Atropelado".
Eu não sabia o que era um frango atropelado, a não ser o óbvio, um frango que colidiu contra um veículo. Mas, por que alguém venderia os coitados após seu infortúnio. Ó céus!
Por inúmeras recomendações maternas (não fale com estranhos; não pare no caminho; não se atrase para a aula; seja boazinha), eu contive o impulso de bater palmas e resolver a questão. Por um tempo, passei pela casa todos os dias. Estava focada. Se encontrasse alguém ali em frente, eu perguntaria. Não encontrei. Me neguei aceitar e procurei em todo meu pequeno mundo alguém que soubesse a resposta. Não encontrei.
Com raiva, inventei histórias de assustar sobre a casa vazia, no topo da montanha, que vendia frangos atropelados. Não pegou. Incentivei um amigo a encontrar a resposta por mim. Sem sucesso. Então aceitei. Sinto dizer que os anos se passaram, a obsessão infantil trocou de lugar com as preocupações da puberdade e, depois, na vida adulta, eu nunca soube o que era o frango atropelado.
PS: vinte anos depois, eu dirigia pelas ruas vizinhas, bem diferentes do que me lembrava da infância. Parei a pedido da minha mãe, que desceu do automóvel e iniciou conversa em frente a uma casa. Algo me pareceu familiar. Um verde sem vida, desbotado pelo tempo, portões brancos corroídos de ferrugem e uma placa, onde se lia com dificuldade a frase: "Vende-se Frango Atropelado".
Saltei do carro num pulo e corri em direção à minha mãe que estava recebendo um pacotinho de chá de hibiscos de um senhor com olhar jovial e aparência ferida por anos de trabalho na indústria. "Você vende frango atropelado?", perguntei. "Não mais, fia. Não faço isso há alguns anos."
Minha mãe me olhou estranho. Minha pergunta era surreal, já que eu não como carne de frango desde pequena. Mas eu precisava saber. "Me responda uma coisa, o senhor. O que é um frango atropelado?". E, enfim, eu soube.
Patrícia Maria Alves é jornalista na FOLHA





