DEDO DE PROSA - Fazenda Maranata
Os alqueires nem eram muitos, mas a paixão e o zelo por aquele local deixavam a nossa terra imensa. Todo o dinheiro que tinha foi para investir em dois bens que, para um produtor apaixonado pela terra, valem muito: um trator de boa potência e um silo para a armazenagem dos grãos.
Quando meu pai se foi, os negócios não estavam indo muito bem. A força braçal conta muito para quem está na lida e as mãos do velho não ficavam mais firmes para a enxada. Por muito tempo estive distante da fazenda Maranata, nome dado pelo meu bisavô, expressão em aramaico que significa "Vem Senhor."
Larguei tudo e fui pra cidade e, só depois que meu velho pai faleceu, senti aquela necessidade de voltar as origens. O local estava abandonado. Minha mãe havia falecido há anos e nenhum dos meus irmão quis assumir aquele lugar. Era como se eles sentissem que eu tinha um maior apreço por aquela terra. Estavam certos.
Meus filhos já estão com o caminho traçado e o relacionamento com minha esposa se desfez há anos. Para mim, nesta altura da vida, assumir a velha propriedade era sim um desafio imenso.
Por isso a história do trator e o silo. Adquirir estes bens com a minha poupança me faria colocar todo o fôlego na Maranata. Ou abraçava com toda a minha dedicação ou esta mudança de vida não valeria para nada.
No começo não foi fácil. Os meus antigos hábitos tornavam tudo complicado. Era como lutar contra algo que estava enraizado dentro de mim. Acordar antes do amanhecer, trabalhar de forma braçal e principalmente aprender a esperar. Esperar a terra trabalhar, o grão se desenvolver. Esperar não é algo que o homem moderno sabe fazer.
Depois de muito suor, finalmente estava purificado. Decretei que minha vida na cidade ficaria no passado. Viver de forma solitária, com meus pensamentos e reflexões, foi difícil no começo, mas agora parece natural ao meu ser. Neste período minha fé também aumentou. A Maranata, a busca pelo Senhor, também.
Todos estes anos, idas e vindas para finalmente chegar ao lugar que nunca deveria ter saído. O que me aguarda no futuro eu desconheço. Na minha mente, escuto as palavras de meu pai. "Você pertence a este lugar meu filho."
Victor Lopes é jornalista da FOLHA





