Como já contei em outra ocasião, as férias no sítio do meu tio eram inesquecíveis. Às aventuras de criança - na companhia de mais sete primas - se somavam às peculiaridades do ambiente rural, com toda sua beleza e simplicidade.
Lembro-me do cachorro Tupã - preto, grande, de raça indefinida e com cara de bravo - que deveria botar medo nos mais desavisados, mas nas noites de chuva com trovão dava pena. Ele era uma tremedeira só e acabava se refugiando embaixo da casa simples de madeira. De dentro, conseguíamos ouvir os seus ganidos e pelo assoalho dava para perceber onde exatamente ele estava. A nossa vontade era por ele dentro de casa, ''mas imagina uma coisa dessas...'', diria meu tio.
E o Tupã, cujo nome originário do tupi-guarani refere-se a uma manifestação divina na forma do som do trovão, também tinha semblante de gente. Havia até um consenso familiar de que ele lembrava muito um tio distante da nossa família. Sei lá, cachorro com cara de gente é coisa de Saci...
E por falar em Saci, quase todas as noites ele aparecia nas conversas após o jantar. Tinha história de Saci que trançou crina de cavalo, que apareceu chamuscado no forno a lenha de uma vizinha e até que destruiu lavouras inteiras de alho.
Na hora de dormir, as histórias ganhavam ainda mais vida e qualquer barulhinho era sinal da aproximação do ''Coisa-ruim''. Vixe! E vá dormir bem encolhida e coberta para o Saci não puxar o pé. Teve uma vez que o ''Cruz-credo'' até derrubou uma casinha de bonecas que eu mesma fiz.
O Saci também dava o ar da graça quando voltávamos dos bailinhos em chão batido onde vira-e-mexe tínhamos que parar para raspar e-le-gan-te-men-te o barro que se acumulava na sola do sapato.
Ainda animadas com a festança e as paqueras que rolavam, minhas primas e eu éramos uma carreira só para chegar logo no sítio enquanto ouvíamos um assovio bem fininho, que parecia ser o do Saci. De vez em quando um peão mais galanteador se oferecia para nos acompanhar, mas, na maioria das vezes, agradecíamos e íamos sozinhas. Com medo, mas felizes. E imagina quem vinha nos receber? O Tupã, todo saltitante, mas desde que não estivesse chovendo.
Ana Paula Nascimento é jornalista da FOLHA

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