O circo que visitava a região, sempre se instalava bem perto da venda do seo Anézio, em um descampado ao lado do campo de futebol e da estradinha que dava acesso aos sítios mais distantes. Local de circulação de pessoas, muito conhecido e de fácil localizacação. Ideal para atrair a atenção das crianças, jovens e adultos que quase nunca tinham outra opção de diversão que não as tradicionais quermesses, forrós e casamentos ou batizados.
A trupe era bem diversificada. Gente muito simples, que vivia com o mínimo que a arte lhes proporcionava. Moravam em barracas de lona, cozinhavam em fogareiros improvisados com tijolos e carvão. Tomavam banho de rio. Mas quando as luzes se acendiam eram tão mágicos quanto quaisquer outros artistas populares. Todos eram ao mesmo tempo bilheteiros, artistas, iluminadores, faxineiros.
A estrutura misturava parque de diversões - tinha sempre um chapéu mexicano, um bate-bate e tiro ao alvo -, números circenses com palhaços, malabaristas e mágicos e ainda tinha sempre a parte que a gente mais gostava: as touradas.
Os espetáculos com os touros eram sempre os últimos da noite. Encerrados todos os outros números, as luzes se apagavam e os alto-falantes começavam a cuspir uma música imponente. Neste instante, um ponto de iluminação mirava o touro que entrava sempre bravo, esbaforido como se fosse para a guerra. Em seguida, pulavam o alambrado os palhaços toureiros Mosquito e Marquito.
A dupla sempre tirava o fôlego das plateias. Enfrentavam as feras como heróis. Faziam graça com panos coloridos para deixar os bichos ainda mais enfurecidos. Entravam em tambores que rolavam em direção aos touros. Era um festival de sandices que durava cerca de meia hora. Até que os animais se cansavam e o número terminava do mesmo modo que todos os outros anteriores: a dupla de corajosos palhaços peões tomava distância e, um atrás do outro, corriam mais que podiam em direção aos animais. A poucos metros de distância, eles iniciavam os mortais até saltarem por sobre os chifres afiados do touro mais bravo.
Nas improvisadas arquibancadas de madeira, o público se levantava e aplaudia de pé a coragem dos artistas. Depois, as luzes se apagavam, o som diminuía e cada um voltava mais feliz para aquela rotina rural que marcava os dias no sítio.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA

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