Os outonos no sítio sempre tinham céu azul, vento constante, folhas caídas e as primeiras geadas. No início, os dias já começavam mais frescos e a medida que as horas avançavam o sol ia aquecendo devagarinho o pasto já meio seco onde ficavam as criações. Nas tardes, ocorria o inverso. A luz natural ia caindo e levava junto aquele calorzinho gostoso que nos fazia tirar os agasalhos.
Os outonos no sítio se tornavam mais e mais frios conforme as semanas iam ficando para trás. O ribeirão corria cada vez mais gelado ladeira abaixo. Pela manhã, uma fumaça fina cobria o espelho d'água. Tudo parado. Até os peixes se entocavam e demoravam para se animar e sair para o café da manhã. Depois de cumprir sua obrigação durante o verão, o joão de barro dormia até mais tarde e só dava as caras quando a claridade já era total. Saía de casa ainda sonolento, amarrotado e ajeitando as penas. Só voava quando os pequenos começavam a piar de fome. Mas logo voltava com minhooquinhas no bico.
Os outonos no sítio desnudavam as árvores. Com as copas peladas, elas batiam os galhos ao sabor da ventania. Pareciam implorar para serem aquecidas. As últimas e resistentes folhas não demoravam para sucumbir à força da natureza. Os ninhos do verão eram abandonados e também acabavam levados pelo vento.
Os outonos no sítio tinham gosto de pinhão. As sementes que caíam das araucárias iam parar na panela ou nos tocos em brasa do fogão a lenha. Quando as cascas se rompiam, a meninada se animava toda e passava a tarde se fartando com a iguaria típica dos dias frios. Pela manhã, minha mãe tirava a gente da cama já com a gemada com canela pronta sobre a mesa. Aquecidos, partíamos para mais uma manhã na escola da vila.
Os outonos no sítio amanheciam pintados com pequenos floquinhos de gelo que se formavam entre o final das madrugadas e o início das manhãs. O gelo castigava a grama e as plantações. No caminho até a escola, a gente ia marcando os passos no capim, tentando interferir no que não podia ser dominado.
Os outonos no sítio ainda marcam a minha lembrança porque na cidade os outonos são vividos em escritórios e edifícios climatizados, em ruas e espaços pavimentados, sem a companhia do céu azul, do vento constante, das folhas caídas e as primeiras geadas.
Luciano Augusto é jornalista na Folha de Londrina

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