DEDO DE PROSA - Dia de tempestade
Quando o céu escurece e os trovões se fazem ouvir pelos quatro cantos, meu coração se apequena e sinto desejo de colo. Sei bem a razão disso. Minha mãe sempre teve pavor de tempestade. Quando chovia forte, tínhamos que seguir todas as exigências e ordens dela. À gente, não cabia questionar nada.
Bastava o tempo mudar um bocadinho para ela começar a se preocupar. Os primeiros sintomas era clássicos: desligava a TV e a geladeira da rede elétrica. Depois, cobria os espelhos ''para não atrair raios''. Na medida que as nuvens avançavam, a situação em casa ia piorando. Minha mãe ia do quarto para sala, da sala para a cozinha, da cozinha para o outro quarto. Fazia todos andar com ela. Conferia se as janelas estavam bem trancadas. Vez ou outra, abria uma frestinha da porta da cozinha para espiar o céu.
O tempo ia piorando e ela ia ficando cada vez mais nervosa. Aos primeiros sinais de pingos, sacava uma garrafinha de água benta e saía jogando pela casa. Dizia que a estratégia ajudava a levar para bem longe os ventos fortes.
Sempre atenta ao que acontecia do lado de fora do sítio, minha mãe seguia rezando mantras indecifráveis para um menino de quatro anos de idade. O nervosismo fazia ainda que ela beliscasse o próprio pescoço com tanta força que, às vezes, chegava a machucar. Parecia que tentava abrir um buraco na pele e desatar o nó da garganta que prendia a respiração.
Se tudo isso não desse resultado, ela recorria então ao velho guarda-roupas de madeira maciça que ficava num dos quartos de casa. Quando chovia granizo, ela abria uma das portas do móvel e enfiava lá dentro eu, meu irmão e minha irmã. A gente ficava entre cobertores e roupas penduradas e ela do lado de fora, cuidando da prole. Meu irmão, mais velho, reclamava e chutava. A mim, como caçula, restava choramingar. Sem destrancar a porta, ela batia na madeira e exigia silêncio. A gente só saía do abrigo quando a chuva passava. Naquele tempo, achava meio estranho, mas depois comecei até achar engraçado aquela cena da gente, já mais crescidos, trancados no guarda-roupas.
Estes eram apenas algumas armas da minha mãe em sua batalha contra as tempestades. Mas ela tinha muitas outras. Certa vez, por exemplo, exigiu que meu pai cortasse um pé de jabuticaba do sítio que ficava muito perto de casa. A árvore cresceu além da conta e, segundo ela, os galhos poderiam cair sobre nós em dias de vendaval. Não descansou enquanto a planta não foi eliminada do quintal.
Nada disso, porém, adiantou. O tempo passou, os filhos cresceram e o medo de tempestade da minha mãe continua intacto. Mas agora, em vez de colocar os filhos, ela coloca os netos no guarda-roupas.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA DE LONDRINA





