Lá no sítio, o Dia de Finados era uma data em que a família falava pouco. As palavras de uns com os outros saíam miúdas, sussurradas. Não era dia de discussão, de tomar decisões importantes, de concluir tarefas inacabadas. Também não havia nenhuma fartura à mesa. Comia-se o suficiente para forrar o estômago e saciar a fome. Era um tempo de saudade, de lembranças e de respeito.
Minha mãe acordava todo mundo cedo e separava e arrumava as roupas de todos em casa. Roupas sóbrias, sérias, quase sem cores. Com introspecção, ela exigia que todos estivessem prontos logo ao amanhecer para que fôssemos unidos render homenagens àqueles que já não estavam mais entre nós.
Antes de deixar o sítio, porém, ela guardava um maço de velas na bolsa e ia até o roseiral, num canto do quintal. Colhia ali algumas rosas. Tirava delicadamente algumas folhas e espinhos. Juntava aos botões uns pendões de hortências e algumas folhas de cidreira. Cortava pequenos pedaços de linha e fazia alguns arranjosinhos delicados e solenes. Levava um consigo e entregava outros a cada um dos três filhos.
Feito isso, saíamos até a estrada onde passava o ônibus para a cidade. No caminho, nem o barulhento motor a diesel vencia o silêncio. Fazia sempre muito calor, mesmo logo de manhã, e meu pai ficava com a testa ensopada de suor. Vez ou outra, retirava do bolso um pequeno lenço para enxugar a face.
Já na cidade, o ônibus parava bem próximo da matriz. Subíamos a Rua da Saudade por umas quatro quadras até a entrada do cemitério. Lá nos juntávamos à concentração reunida para acompanhar a primeira missa, rezada numa capelinha que ficava bem na porta do campo santo. Lembro até do cheiro do incensário do padre espalhando aroma de erva pelo ar.
Depois, seguíamos até o jazigo da família onde descansavam os nossos. Um de cada vez, acendíamos as velas e depositávamos as flores sobre o piso frio e duro do túmulo. Meus pais se ajoelhavam e nos davam as mãos. Orávamos solitários por alguns minutos e ficávamos mais alguns momentos por ali, olhando o pequeno retrato preto e branco e caçando na memória as lembranças de bons dias, de aniversários passados juntos, de festas de casamento e batizados, de cuidados dedicados uns aos outros, de idas e vindas...
Antes de ir embora, mamãe e as irmãs retiravam com as mãos os pesinhos de mato que nasciam nas rachaduras do cimento. E lustravam as lápides manchadas pelo tempo. Dia de Finados era um dia diferente, mas não havia tristeza. Havia respeito, agradecimento para com aqueles que um dia estiveram entre nós. Ainda que a saudade continue apertando o coração.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

mockup