DEDO DE PROSA - Delícias do campo
Dos meus tempos de repórter da Folha Rural, as melhores recordações são dos meses em que, grávida da minha primeira filha, viajava pelas propriedades rurais da região. Pelo menos uma vez por semana, quase sempre acompanhada do veterano fotógrafo Dorico da Silva, eu e minha (cada vez maior) barriga deixávamos a redação em busca de histórias, experiências e tecnologias que merecessem ganhar as páginas do jornal.
Na cidade, a regra de saúde para gestantes era se alimentar bem, em pequenas quantidades, escolhendo alimentos nutritivos, mas nem sempre atraentes ao paladar. No campo, a velha máxima de que ''mulher grávida come por dois'' continuava valendo. Por isso, a chegada da repórter barriguda nos sítios, chácaras e fazendas visitadas sempre causava alvoroço entre os moradores.
Se o almoço começava a ser preparado, era obrigatório oferecer uma ''provinha'' à moça da Folha, mesmo que o horário ainda não fosse adequado para degustar carne de porco frita, frango ensopado ou polenta. No início, até recusava a delicadeza, mas, diante do argumento de que ''grávida não pode passar vontade'', me resignei e passei a aceitar toda sorte de iguarias oferecidas.
Além do almoço, os moradores das propriedades visitadas faziam questão de me oferecer todas as guloseimas que fabricavam. Pão caseiro quentinho com manteiga, queijo branco, compotas de frutas, geléias e toda sorte de produtos in natura deliciavam a equipe entre uma e outra entrevista. Em alguns casos, com medo de que o bebê nascesse com ''cara'' de algum alimento que não consegui provar, ainda recebia uma matula para viagem.
Numa série de reportagens sobre o início de um polo produtor de frutas na região Norte, jamais deixei os sítios dos pequenos agricultores sem uma generosa sacola. Laranja de mesa, banana, uvas de diversas variedades, lichias, pêssegos, morangos e maçãs me eram entregues em quantidade suficiente para alimentar uma grande família. E não adiantava avisar que a fruta era muita. A resposta invariavelmente, excluia a futura mãe: ''leva, minha filha, que fruta é bom para o bebê.''
Foi graças à gravidez que consegui conhecer melhor toda a alquimia que envolve a produção de alimentos e sua transformação nas delícias que fazem parte da rica culinária brasileira. Por conta do bebê que ainda nem tinha nascido, também, estreitei laços com pessoas que até então eram apenas ''fontes'' ou ''entrevistados'', humanizando essa relação através dos singelos convites de entrar pela porta da cozinha.
Carolina Avansini é repórter da Folha de Londrina





