Meu avô dizia que de última hora não existe nem planta nem colheita. Confesso que naquela época, eu, molecote de calção e chinelos, não fazia a menor ideia do que aquele velho senhor estava tentando me ensinar. Hoje, crescido, tenho minhas próprias convicções, mas aquela frase ainda zumbe nos meus ouvidos vez ou outra.
Os tempos são outros, bem diferentes daqueles do meu avô. Mas penso que quando ele falava isso para mim e para seus filhos e netos queria mostrar a importância do planejamento em nossas vidas. Sem preparo, a terra rica não pode receber a semente. Sem a semente certa, não há plantação que consiga progredir. E sem a plantação, não há o que colher.
Na natureza, as coisas são assim também. Até os bichos planejam, estudam, avaliam, preveem os percalços e as dificuldades que poderão encontrar pelo caminho.
A formiga se prepara no verão para sobreviver ao inverno. O peixe precisa vencer toda a correnteza para procriar e garantir que outros de sua espécie nasçam, cresçam e subam o rio novamente para perpetuar o ciclo da vida. A andorinha voa milhares de quilômetros para fazer seu ninho e ter suas crias..
Não é de última hora que o canarinho constrói seu ninho, muito bem escondido na copa da árvore. É feito com capricho, ramo por ramo, galho por galho, para acomodar primeiro os ovos e, mais tarde, os filhotes. O elefante, quando está prestes a morrer, se separa da manada para descansar em paz. O gato, quando vai parir suas crias, procura um cantinho bem escondido e protegido, para dar à luz seus filhotinhos. Na barriga da mãe, a nova criatura permanece nove meses até estar pronta para vir à luz.
Na natureza, nada é feito de última hora. A pedra demora uma eternidade para ser pedra. O rio desenha seu caminho também assim, aos poucos, centímetro a centímetro por entre os altos e baixos do relevo.
De última hora mesmo só os rompantes humanos, as brigas de amor, o choro sentido, o susto da surpresa, a dor da perda. De última hora tem o assalto, o tombo, o grito de espanto. De última hora também se vive, mas ao acaso.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA

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