DEDO DE PROSA - Conserto do carneirinho
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de setembro de 2019
Celso Felizardo - Grupo Folha 
Toda vez que acabava a água lá no sítio, escutava meu tio praguejando contra o tal do carneirinho. Na minha cabeça de criança, ficava imaginando o que o pobre do bicho teria feito. Será que bebia toda a água do rio? Ou quebrava o encanamento? Tinha comigo que logo iríamos comer um churrasco de carneiro.
Um dia desci com meu tio até o ribeirão que cortava o sítio. “Pra descer todo santo ajuda”, advertia ele na ida, olhando para trás e vendo a subida que nos esperava. Eu ia na frente, correndo e juntando pedras para derrubar coquinho do alto das palmeiras. “Vamos logo que o pessoal tá precisando de água na cozinha”, apressava-me. Deixava ele tomar distância considerável e saía em disparada atrás.
Ao chegar na mina que abastecia o sítio, descobri que o tal carneirinho era uma bomba que usa a pressão para levar água até a casa. O nome vem do golpe de aríete, uma variação de pressão no interior dos canos aproveitada para bombear água. Aríete era uma antiga arma medieval usada para arrombar portões de castelos, muralhas e fortalezas, geralmente com uma cabeça de carneiro na ponta.

Com a bomba consertada, voltávamos para ajudar na produção de pamonha. Os homens cortavam as espigas com um facão, as crianças retiravam a palha e os cabelinhos e as mulheres ficavam no ralador. O trabalho era animado ora por piadas, ora por causos de sacis, mulas-sem-cabeça e toda a sorte de entidades fantasmagóricas. As histórias macabras geralmente também acabavam em risadaria, como a vez em que a avó disse que viu a mula-sem-cabeça que solta fogo pelo “zóio”.
Para um menino que nasceu no litoral, tudo no sítio era novidade. Em tempos em que nem internet existia, ficar offline era não ter energia elétrica. Nada que uma boa quantidade de pilhas grandes não resolvesse. O rádio tocava a estação local e as fitas cassetes. Meu pai sempre carregava uma caixa cheia delas dentro do carro para montar a sua playlist analógica.
Com o milho já ralado dentro de bacias, era a hora de ir para o fogo. Minha tia pegava algumas lenhas da pilha acumulada no canto da cozinha e ralhava com meu tio: “Tem que cortar mais porque já tá acabando, seu preguiçoso”. Ele retrucava com a resposta automática: “Amanhã eu vou”. E muitas outras coisas ficavam sempre para amanhã no sítio dele. O único reparo improtelável era o do carneirinho.
Separávamos as melhores palhas para envolver as pamonhas. As salgadas eram amarradas com fio branco. As doces, com fio vermelho. Ao mesmo tempo, o cheiro do café tomava conta da cozinha. Comíamos pamonhas até não mais aguentar. Ainda sobravam algumas. Sempre tinha um parente que não conseguia ir nos encontros aos fins de semana.
Com a pia cheia de louça, a torneira seca outra vez. “Maldito carneirinho”, grita meu tio. E lá vamos nós outra vez. Após tantos anos, com a cabeça no travesseiro, de vez em quando ainda escuto o barulho do carneirinho: “toc, toc, toc...”
Celso Felizardo, editor na Folha de Londrina


