DEDO DE PROSA - Com açúcar, com afeto
Da casa da minha avó, me lembro do cheiro de cravo e canela fervendo no tacho de cobre onde ela produzia iguarias feitas de goiaba, mamão, abóbora, laranja e leite. Apesar de urbana e moderna, Vó Emília nasceu e cresceu numa época em que não havia prateleiras de supermercado onde fosse possível escolher a sobremesa. Por isso, aprendeu ela mesma a produzir toda sorte de delícias feitas com os produtos trazidos ''da fazenda''.
Em pedaços ou em pasta, as compotas deliciavam os netos que esperavam os quitutes ficarem prontos entre brincadeiras e gritarias no quintal. Com muita habilidade, a vó cortava as frutas em tamanhos iguais e, como uma alquimista, adicionava os ingredientes no tacho até obter pedaços de doce crocantes por fora e cremosos por dentro, cozidos em uma calda perfeita que era misturada ao queijo branco nos pratinhos floridos de louça onde ela nos servia.
Outra especialidade era o doce de leite, apurado com paciência para atingir o ponto adequado. Aos domingos, era dia de pudim, que vó Emília preparava no dia anterior, mas só cortava depois do almoço familiar dominical. Com receitas herdadas da família portuguesa, ela sovava e assava, também, toda a sorte de pães e roscas doces cuja sedução vinha de detalhes como o açúcar cristalizado por cima ou o suave toque de erva doce na massa.
Ao contrário das donas de casa modernas, vó Emília não tinha pressa para cozinhar. Seguia criteriosamente o ritual de preparação de cada alimento e raramente se rendia às facilidades do leite condensado. Hoje, com mais de 90 anos, já não cozinha como antes, mas continua fazendo questão do pudim de leite aos domingos.
Quando quero presentear Dona Emília, a escolha certeira inclui açúcar, especiarias e delicadeza, seja em biscoitos artesanais, doces caseiros ou um bolo diferente. Afinal, para quem cresceu envolta em uma névoa de cravo e canela por toda a cozinha, a melhor forma de demonstrar afeto ainda passa pela vontade de agradar o paladar apurado da alquimista dos tachos e colheres de pau.
* Essa crônica é uma homenagem a todas as avós e avôs, cujo dia foi comemorado no dia 26 de julho.
Carolina Avansini é jornalista da Folha de Londrina





