DEDO DE PROSA - Céu de estrelas
Não cresci e me tornei astrônomo. Tampouco, até hoje, me aventurei numa viagem ao espaço. Mas quando era pequeno, tinha fascinação pela imensidão infinita que cobria nossas cabeças no sítio todas as noites. Não sei se hoje as pessoas ainda param para observar o céu. Quase todo mundo vive nas cidades, onde a luz artificial ofusca e esconde o brilho misterioso das estrelas. Muitas foram as vezes que me deitei no gramado do quintal de casa para olhar para cima e contemplar aqueles incontáveis pontos brilhantes que ficavam tão longe e tão perto.
Em casa, nunca se estudou Astronomia. Sabíamos apenas o que estudávamos na escola: o sistema solar e a ordem dos planetas, as rotações do Sol e da Terra, a importância da Lua, as missões espaciais, e nada mais além disso. Mas, ainda assim, o céu atraía os olhares quando caía a noite. De tão lindo, parecia que a gente era capaz de tocar nas estrelas.
Alguém já me disse que o que fazia o céu da minha infância ser tão lindo é porque lá no sítio havia pouca ou nenhuma iluminação artificial. Dentro de casa, algumas velas e lamparinas clareavam o suficiente para que pudéssemos distinguir as coisas e os lugares. Do lado de fora da casa, não existia nenhum lampião ou qualquer outra fonte de luz que pudesse ofuscar a beleza do universo. Sem claridade, podíamos ver quase além do infinito.
Eu e meus irmãos deitávamos na grama já meio úmida e íamos contando estrelas. Só não podia apontar para elas com o dedo, pois se acreditava que para cada estrela indicada uma verruga cresceria em nosso corpo. Era tudo verdade. Até nossos cachorros se juntavam à gente e ficavam quietinhos espiando a noite estrelada. Ficávamos também desvendando formas e desenhos. Um cavalinho sem rabo, uma cara de diabo com chifre e tudo, um peixe, um quadrado... O corpo de uma mulher... Um sapo, uma coroa, uma lança...
Algumas vezes, minha mãe se juntava à gente e também brincava de desvendar o céu. Eu deitava a cabeça em seu colo e esperava que ela contasse, mais uma vez, a mesma história. Rapidamente ela reconhecia e nos mostrava as Três Marias, os únicos pontos que conhecia na abóbada celeste. Era assim todas as vezes. E ficávamos maravilhados. Como podia, naquele caos gigantesco que era o infinito, haver tamanha simetria entre três pontinhos tão frágeis?
E a gente perguntava sempre a ela o que havia depois do universo. Sem demonstrar receio, dizia que Deus morava para além das estrelas e que era para lá que iriam também todas as boas pessoas. ''E como era o mundo antes de existir o céu?''. Minha mãe respirava, pensava um pouco e falava que não havia gente, não havia bicho, não havia árvores nem rios, nem o ar e nem o Sol. ''Deus ainda estava criando tudo'', finalizava.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





