Olhando as notícias que permeiam a mídia, envolvendo a mulher, fui pesquisar lá no passado, nada de pesquisa científica ou elaborada, apenas minhas vivências e lembranças, sobre as mulheres de meio século atrás .

Imagem ilustrativa da imagem DEDO DE PROSA - As mulheres de então
| Foto: iStock

Obviamente imperava o machismo, naturalmente aceito em todas as famílias, com exceção de algumas em que “a mulher mandava no marido”. Minha mãe, viúva e despachada afirmava que homem nenhum mandava nela. Tinha o caso de uma vizinha nossa, professora, culta, trabalhadeira, que sustentava a família, os filhos e o cigarro... de todos. O marido não tinha trabalho definido e, para esses casos, se dizia que era corretor (não sei do que); era um caso um tanto interessante. Quando ele chegava em casa dava um assobio... e todo mundo se arrepiava e corria para casa. Até a amiguinha que brincava comigo, toda a família, até o cachorro, todos para dentro de casa e olha lá se assim não fosse. Eu queria saber o porquê.

“Porque ele é bravo! Já foi delegado! ” “Bom, ainda bem que eu não tenho pai, pensava”. A maioria das mulheres era submissa ao marido, ou pelo menos aparentava, pra não perder o camarada. Mas como sabemos, mulheres sabem disfarçar muito bem e algumas faziam de conta que obedeciam, que ele mandava em casa, mas, no fundo, quem davam as cartas eram elas. Os maridos nem desconfiavam da jogada.

Mas não funcionava assim com todas. Muitas sofriam mesmo com os maridos bêbados, mandões, mas contra os provedores da casa não havia muita opção. Tinha aquele tipo ignorante, que achava que a mulher era como “forno de São Bento” , em relação à gravidez: era um filho fora e outro dentro, todo ano, um atrás do outro. Pois é, a beleza da família grande, com muitos irmãos...imagino a situação dessas mulheres...Será que ficavam realmente felizes?

Só sei que em minha casa o cenário era diferente. Minha mãe já tinha quatro quando ficou viúva. Meu avô tinha algumas características do macho italiano, mandão, mas era bem cuidadoso em relação aos filhos, sofrido com a morte do único filho homem, por esse motivo transferindo seu amor para o neto e tinha conosco uma ótima relação.

A vó era submissa por formação, amorosa, entendia o casamento por amor que seria dividido entre os filhos que viessem. De saúde mais frágil, era bondosa, sábia, cumpridora dos seus deveres de mulher sem nenhuma complicação. Melhor para os dois.

Com minha mãe viúva, tínhamos uma formação de defesa contra os homens: deveriam realizar as tarefas mais difíceis, tinham que ajudar em tudo e, de preferência, obedecer à sua mulher. Nada mal.

Mas conheci tantas mulheres com os mesmos problemas das mulheres de hoje, com a diferença de não trabalhar fora de casa, a não ser como professoras, costureiras, ou na lavoura, pouquíssimas opções. Havia algumas que gostavam de gastar o dinheiro “ do marido” posando de madames e fechando os olhos para as escapadas dos mesmos.

Ser mulher, na época, era andar na corda bamba. Tinha que ser a recatada para casar, o mesmo não se exigindo do homem; esse namorava e se divertia com todas, mas na hora de casar escolhia a recatada. Após o casamento, muitas vezes continuava sua vidinha de solteiro e tudo ficava bem para todos.

Também havia exceções, mulheres felizes, mas na maioria não deveriam ser felizes com seus amores, contentando-se com uma vida honesta e de respeito familiar, com dedicação total aos filhos e ao marido, às vezes morando com a sogra que nem sempre ficava ao lado da nora.

Hoje, dizem que não, mas existiam, sim muitos problemas e conflitos familiares, a diferença é que eram resolvidos ali dentro de casa, na maioria das vezes com um jeito dado pela mulher e a última palavra do homem.

Percebia-se muitos maus -tratos contra as mulheres e crianças. Muitas apanhavam frequentemente e continuavam firmes pois não tinham o direito de reclamar.

Infelizmente, não mudou muita coisa para elas. A participação no trabalho não as livrou da responsabilidade de cuidar da casa e trouxe-lhes a dupla jornada. A liberdade sexual aumentou, porém, a responsabilidade de criar os filhos sozinha também. O sucesso e a independência causou o ciúme e provocou o ego dos machões, surgindo a violência maior contra a mulher, o feminicídio .

Os tempos mudaram, as mulheres mudaram e obtiveram algumas vitórias, mas o mundo ainda é cruel em relação a elas. Desrespeito, discriminação, abuso.

Não foi à toa que minha mãe enviuvou aos 25 anos e nunca se casou. Motivo? Três filhas” mulheres”. A lição pode ser antiga, daquele tempo, mas continua válida como prioridade, respeito, prevenção e cuidado com a vida das mulheres de todos os tempos.

Estela Maria Ferreira é leitora da FOLHA

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