As mãos dizem muito sobre a vida de um homem. Tem gente, inclusive, que acredita que por meio delas é possível descobrir o destino de cada um que passa por esta Terra. Jesus disse certa vez que se a mão fizer o homem pecar, melhor cortá-la e entrar no Reino do Céus aleijado, ao passar a eternidade com as duas no lago de fogo e enxofre.
Meu pai não cometeu tropeços durante sua vida e - como ninguém que conheci - fez bom uso de suas mãos. Me lembro dos tempos de criança, em nossa pequena propriedade que vovô deixou, como ele as utilizava para acariciar minha mãe. Nos momentos mais singelos, depois do dia duro de trabalho, as mãos de meu pai passeavam pelo rosto de sua esposa, pelos seus cabelos ainda sujos de suor e mostravam seu afeto que por palavras ele não conseguia expressar.
Para mim e meu irmão, suas mãos significavam a força para atingir o inalcançável. Com a ajuda delas, subíamos nas copas das árvores mais altas, domávamos os cavalos mais selvagens e sofríamos com os puxões de orelha pelas travessuras do dia a dia.
Aquelas mãos sustentaram nossas vidas por muitos anos. O suor que elas carregavam pelo ritmo intenso da enxada na lavoura, pelas cercas que levantaram para proteger nossa terrinha, pelas lenhas que cortaram pro fogão da minha mãe e, principalmente, pelas palmas que batiam no ritmo do louvor que cantávamos todas as manhãs. Ela passeava pelas páginas da Bíblia diariamente, apontando o Salmo mais bonito e encorajador para enfrentarmos nossos medos desta vida nada fácil.
O tempo passou, e as mãos que trabalharam tanto pediram descanso. Na velhice de meu pai, a direita segurava a bengala de forma rígida, enquanto a esquerda era especialmente reservada para acariciar as cabeças daquele bando de netos que abraçavam as suas pernas de forma intensa. Elas tiveram tempo ainda de segurar as mãos de sua mulher por alguns anos, naqueles passeios gostosos e sem rumo certo que apenas a longa experiência pode nos oferecer.
No dia que papai se foi, fiquei sentado ao seu lado segurando as suas mãos ásperas e frias, tentando entender um pouco pelo que elas passaram ao longo de tanto tempo. Olhava aqueles calos, aquelas linhas intensas e entendi que era possível contar uma história inteira a partir dali.
Tudo que aprendi, tudo que sou, todos os meus sentimentos, de certa forma, estão ligados ao par de mãos daquele homem que tanto preservou e amou a sua família. Elas me suportaram nos momentos mais críticos e me apontaram os caminhos da ética, da família, dos bons modos, do cristianismo e do trabalho. Que agora, meu pai descanse em paz nas mãos do nosso Deus.
Victor Lopes é jornalista na FOLHA

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