DEDO DE PROSA - As festas de São Genaro
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de abril de 2019
Sidney Girotto 
Na cabeceira do sitio do meu avô, Antônio, que era italiano, ficava a capela de São Genaro. No local, a capela era feita de peroba-rosa e pintada com as cores da Itália, pois meus avós eram italianos, assim como a grande maioria dos moradores daquele bairro rural.
Ao lado da igrejinha, tinha uma enorme cruz feita com madeira de lei, um grande pátio com um barracão onde eram realizadas as festas do padroeiro, casamentos, batizados, reuniões e tantos outros eventos. Mas o grande acontecimento era a festa do padroeiro.
As preparações começavam dias antes, onde eram formadas as comissões. As mulheres assumiam a cozinha, nos afazeres da macarronada com molho de frango, o nhoque de mandioca e o “arroz temperado”.
Outra comissão era dos churrasqueiros, sempre comandada pelo Seo Angelim. Tinha os que eram responsáveis pelas compras das bebidas, e de todo o material. Outra era o de arrecadações de leitoas, novilhas para o churrasco, frangos, arroz ou seja tudo o que era necessário para a festa.
Era uma trabalheira danada. Para a festa vinha muita gente, famílias, pessoal das cidades vizinhas, os políticos. A festa começava no almoço do sábado e só terminava no domingo à noite. No domingo pela manhã o padre rezava a missa.
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Seu Serafim era o responsável pela barraca do coelhinho, pois ele tinha feito as casinhas, que eram numeradas, em número de 20. As casinhas eram dispostas em círculo e no meio tinha um caixote onde ficava o “pobre bichinho”.
Após vender todos os números, o caixote era levantado e o coelhinho, assustado pela gritaria do povo, corria de um lado para o outro até entrar em uma das casinhas. Era muito divertido e o sortudo ganhava uma prenda.
Tinha também a barraca de pescaria, diversão para a criançada. Seo João Malaco, que tinha um aparelho de som e dono de um vozeirão, comandava o sistema de alto falante, com as músicas de raízes.
Meu pai era o responsável por “gritar” o leilão de frangos e leitoa no almoço. As meninas vendiam e levavam os “correios elegantes”, onde os rapazes mandavam seus galanteios para as mocinhas. Ali começavam os namoros e os futuros casamentos.
À tarde tinha a tômbola, uma espécie de bingo, onde eram sorteadas prendas. Em outras mesas os homens juntavam para jogar truco. Era uma gritaria só com os parceiros que chegavam a subir na mesa.
No final da festa, o dinheiro arrecadado era colocado em uma caixa e levado para a casa do presidente da comissão, sendo que a chave do cadeado era dada a um outro membro que levava para sua casa. No dia posterior eram feitas as contas e o que sobrava era depositado no banco.
A energia da capela era fornecida por um motor e que gastava muito combustível. Só era ligado nas grandes festas. Era uma barulheira danada.
O tempo passou, e o bairro foi se acabando com as geadas frequentes. Meu “Nono” vendeu a propriedade e fomos para a cidade.
Passaram muitos anos e fui lá para ver a saudosa capela, que já não existia mais, pois o local tornou-se uma fazenda de gado, só restando uma velha cruz de peroba.
SIDNEY GIROTTO, MÉDICO E LEITOR DA FOLHA


