DEDO DE PROSA - As cartas do irmão
As cartas estão cada vez mais raras. Já se passaram seis meses e meu irmão mais velho parece ter esquecido que mamãe fica ansiosa por notícias dele aqui no sítio. Pedro foi o primeiro de toda a família a ''tentar a vida'' longe de nossas terras e, como primogênito, não há dúvidas que nossa mãe tem um apreço diferente por ele.
Se o povo rústico aqui de nossas bandas nunca imaginou uma vida além da porteira, Pedro simplesmente tinha pensamentos avessos sobre tudo. Sempre alheio aos trabalhos manuais do campo, costumava dizer para nós - os irmãos mais novos - que sua mente estava à frente daquele lugar onde nascemos.
Inquieto, com 21 anos completos ele arrumou suas malas e foi bater na porta do desconhecido. Sua ideia era estudar na cidade grande e se tornar ''um artista''. Nas primeiras cartas que nos enviou, o deslumbramento de Pedro pelo que estava vivendo era nítido em cada parágrafo. A alegria em se relacionar com pessoas como ele parecia satisfazê-lo por completo.
Para nossa mãe, apesar da dor no coração por estar longe do seu filho mais amado, as cartas eram um conforto para sua saudade. Ela as guardava com todo o cuidado, sempre esperando a próxima entre os trabalhos do campo.
Quando as cartas pararam de chegar, o mundo de minha mãe desmoronou. Sozinha, já que meu pai faleceu há certo tempo, todos os afazeres de nossa terra e o carinho dos outros filhos pareciam não completá-la. Eu a encontrava chorando pelos cantos esperando notícias daquele filho que se foi.
Como segundo irmão mais velho e portanto o homem da casa, tomei uma decisão pela nossa família. Com caneta e papel em mãos, comecei a escrever as cartas em nome do meu irmão.
Na primeira delas, pedi desculpa pela ausência de notícias justificando que ''estava em uma viagem para um novo trabalho''. Para aprimorar a escrita semelhante à de Pedro, relia as cartas que ele enviou a nossa família por centenas de vezes.
Minha imaginação era desafiada a cada linha que escrevia. Elas precisavam, de alguma forma, ser fieis a tudo aquilo que Pedro estava vivendo. Como meu irmão nunca mais enviou nada para nós, eu carregava o fardo que algo poderia ter ocorrido com ele e impedia minha mãe de saber a verdade.
Mas a alegria dela parecia mais importante do que isso. Continuei nesta jornada até o momento que sua vista ficou cansada e a impediu de ler, velhinha em sua cama. A vida no campo continuou, assim como a saudade de nosso irmão.





