Tuti-fruti ou sabor cola. Isso era o de menos para o time que ganhasse o vôlei. O condomínio da rua José Neves, em São Paulo, tinha dois prédios, dezenas de crianças e uma área de lazer de encher os olhos. Parquinhos, piscinas, salões de jogos, quadras e liberdade. Um sonho e as crianças de apartamento faziam daquele espaço, a melhor realidade.
Com tanta gente miúda, todo fim de semana tinha aniversário e a deliciosa obrigação de comer pão com carne desfiada, bolo, docinhos e direito a bailinho. As meninas ganhavam três calcinhas, os meninos, zorba. Roupa sem frescurite porque a festa se estendia à gangorra, ao balanço e às brincadeiras de pega-pega, esconde-esconde, sela e até onde a imaginação e o juízo permitissem. Era bom lembrar que escorregar no morrinho era melhor de dia.
Chegar da festa se coçando e cheio de capim poderia ser uma má ideia. Sem contar que sempre que um despencava lá de cima rumo à avenida Interlagos, era risada pra todo lado e ecoava até o 13º andar. Todos se conheciam pelo nome e sobrenome, mas era pelos apelidos que se tratavam. Pedro virou Guimba. Rafael, que já era Nenê na família, virou Caolho entre os amigos. A irmã deles, num dia dos mais inspirados, virou o Ravengar, personagem de Antonio Abujamra, da novela ‘Que Rei Sou Eu?’. Mas o cabelo avolumado não era mera coincidência. Havia ainda o Zé das Coves, as Gregas, a Anã, o Peido e o Barriga.
Mas nem a rede de pingue-pongue, nem a de vôlei, separava essa turminha que poderia inspirar vários autores da série Vaga-lume. Os times não eram fixos. Podia ser menino contra menina, Marajó versus Paranoá – os nomes dos prédios - ou ainda mistos, tinham torcida na arquibancada e até levantador que passava por baixo da rede sem se esforçar.
Um no apito, contagem ponto a ponto e a brincadeira levada a sério acabava na padaria que era praticamente dentro do condomínio. Lá, a turminha se sentia gente grande. Sentados lado a lado nas banquetas, os ganhadores comemoravam com poucos goles de refrigerante do tipo tubaína, rotulados de baré. Era uma garrafa para o time inteiro. Quem perdia, pagava com algumas moedinhas, mas também dividia a alegria com doses generosas de espírito esportivo e assim o jogo terminava bem pra todo mundo.

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