DEDO DE PROSA - Ame os seus amigos
Vez por outra, dá uma saudade de pessoas que cruzaram nossa história. Que partilharam da nossa infância, que dividiram molecagens e aprenderam a soletrar as primeiras letras conosco. Ao mesmo tempo, dá um aperto no peito e uma alegria incontida. Voltam os cheiros e gostos daquela época. Os episódios marcantes vividos juntos viajam no tempo e aterrissam no presente, como se o passado fosse logo alí e, na realidade, nunca tivesse passado. O coração acelera. Tudo acontece como da primeira vez e nos emocionamos sozinhos com nossos pensamentos.
Revive-se as brincadeiras. Gritos, correrias, alegrias e choros retornam num ''vapt''. A recordação do golaço marcado no campinho do sítio, cheio de altos e baixos, até anima nossas pernas envelhecidas a chutar de novo. A trave feita de bambus quase nunca aguentava os potentes chutes da gurizada. Depois do jogo, juntavámos as poucas moedinhas e comprávamos uma gasosa, que era repartida entre o time inteiro.
O primeiro dia de aula depois das férias também era uma festa. Mesmo aqueles amigos de perto que haviam convivido com a gente durante todo o período de folga escolar repartiam novidades. Pareciam até que tinham escondido coisas que só podiam ser reveladas quando a turma toda se reencontrasse no recreio inaugural de mais um ano letivo. E que felicidade era ouvir aquelas fanfarronices infantis. Não importava se tudo não passasse de lorota.
Meus velhos amigos também dividiram comigo pequenas frustrações e algumas dores. Por exemplo, a bola nova que não chegou naquela noite de Natal. O primeiro beijo, ansiosamente esperado, que não aconteceu como se havia sonhado. Tão bela era a menina...
Também compartilhamos coisas realmente tristes. Lembro que era ainda criança quando perdi um bom amigo. Desses companheiros que deixam memórias que não se apagam. Fizemos poucas mas boas coisas juntos e isso fez nossa relação permanecer eterna. Recordá-lo é como recobrar a magia da amizade criada sem pressa e sem cobrança. É aquele tipo de amor que nasce devagar e que aumenta de um tanto e sem alarde que a gente nem se preocupa em calcular. Como tem que ser entre amigos.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





