DEDO DE PROSA - A viola de Alcindo
O palco era improvisado: um corredor de terra batida entre a casa principal do sítio e o cercado onde ficavam as galinhas. O público? O de sempre: eu, papai, mamãe, meus avós e tias, além de toda a vizinhança que se reunia lá em casa após o trabalho na roça. O dedilhar nas cordas do violão provava que o artista era de primeira e de bom repertório. Seu nome era Alcindo, único funcionário de meu pai há muitos anos que, além de cuidar de diversas tarefas no dia a dia de nossas terras, emprestava sua voz e talento para canções que nos alegravam quase todas as noites.
As mãos calejadas de quem trabalha com a enxada não atrapalhavam o show daquele homem que já passava dos 70 anos de vida. Papai contava que ele havia conhecido Alcindo numa cidade próxima ao sítio e que, precisando de alguém para ajudá-lo a tocar a lavoura, chamou-o para uns dias de experiência. Nunca mais o deixou partir.
De jeito simples e trabalhador, logo ele conquistou toda a família. Violeiro por natureza, sempre tocava aqueles louvores e modões que todos gostavam de escutar, da criançada até os mais idosos. Suas músicas embalaram a vida de muita gente, dando força e uma alegria a mais em nossas vidas.
Naquelas reuniões do pessoal do sítio, muitos casais se apaixonaram ao som da viola de Alcindo. Outros choravam de emoção ao pensar em nosso Deus, nos parentes distantes que nunca mais encontraram ou lembravam de um amor que ficou equecido lá no passado. Quando o céu estava estrelado, iluminado como só no sítio acontece, Alcindo parecia se transformar. Cantava os louvores mais bonitos que conhecia, não largava o violão por horas, o que fazia o povo ficar até de madrugada lá em casa, sem se importar com o sereno, extasiados.
Mesmo quando passou dos 85, com os pulmões já não tão fortes quanto antes, ele não parou de cantar, nem se tivesse fôlego para apenas uma canção. Me lembro como se fosse hoje o refrão do último louvor interpretado por Alcindo. ''As estrelas incontáveis Tu conheces todas pelo nome. Todo o universo desenhado foi em Tua majestade. A tua glória brilha aqui, e quanto mais Te vejo, eu Te amo. Rei da Glória, maravilhoso és, não há outro além de Ti. Rei da glória, dono do meu coração e, quanto mais Te vejo eu amo''. Certamente, a glória de Deus brilhava através da voz daquele velho violeiro.
Victor Lopes é jornalista na FOLHA





