A maioria das pessoas tem um conceito de caipira distorcido pela ideia das coisas que a gente que vive na zona rural não conhece da cidade. Comigo foi diferente. Eu nasci no interior paulista, não o interior que tinha o privilégio de ser rural. Mas o interior que foi sacrificado para o desenvolvimento industrial da região.
A minha cidade se desenvolveu ao redor de uma vila de trabalhadores da fábrica de cimento. Assim que a Mata Atlântica da cidade foi substituída por muito concreto. E quando eu nasci, a única vegetação do local ficava ao redor do rio, que represado, não era mais que um fila magra de água e óleo.
Na minha infância, os encontros aconteciam sobre os paralelepípedos que cobriam toda a rua, a da minha casa, a propósito, era um morro com 45 graus de inclinação, parecia um tobogã cinza, e várias vezes eu escorreguei naquele tobogã de barriga e joelho, depois de desequilibrar de bicicleta. Na vizinhança, crianças e jovens também se misturavam para a brincadeira que era um sucesso: bets. Não preciso dizer que ninguém queria ficar no lado do relevo acidentado; perdia na certa.
Com o tempo, a cidade foi ficando cada vez maior, mas mantinha aquele ar de vila de trabalhadores, que dominava a maior parte das cidades num raio de 100 km da Grande São Paulo. Verde era sinônimo de passado. Futuro se fazia com cimento. Assim eu cresci.
Era 2002 quando estacionei na Avenida Higienópolis, em Londrina, e admirei que o centro de uma cidade fosse tão arborizado. "Quero morar aqui!", pensei. Aquele final de semana era a prova do vestibular da UEL, e eu passei. Me despedi da minha terra e vim fazer o caminho contrário que meus conterrâneos bandeirantes fizeram um dia.
No primeiro ano do curso de jornalismo, participei de um projeto de rádio no qual íamos fazer uma reportagem sobre a Expo 2003. Naquela tarde ensolarada, o tempo ameno de uma Londrina que, com tristeza, digo, muito mais arborizada que hoje, fui com a turma ao Parque Ney Braga. Desci animada o caminho de tijolos amarelos que levavam até a área de exposições de animais. Minha amiga ficou assustada quando me ouviu gritar e cair. "Que monstro gigantesco é esse Mayra? Ele fazem animais transgênicos aqui? Meu Deus!", e ela, não sabendo o que acontecia, me disse: "Levanta Patrícia, é só um boi nelore!". Fiquei em choque ainda mais alguns minutos e depois, maravilhada, fui conhecer, pela primeira vez, os animais do campo.

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