DEDO DE PROSA - A oração do matuto
Toda manhã, logo que os primeiros raios de sol despontavam timidamente no horizonte, o matuto já estava de pé. Antes de sair da cama (e também depois de se deitar), fazia o sinal da cruz. Costume dos antigos que carrega desde criança.
Após o banho frio, para despertar, uma olhada rápida no pedaço de espelho pendurado para ver se a barba rala precisa ser aparada. No pé, a botina usada para o trabalho pesado da roça, que está precisando ser renovada. Muitos quilômetros de chão batido.
Enquanto coa o café forte e com pouco açúcar no coador de pano, abre a janela da cozinha. No pasto, o orvalho reflete a luz singela da manhã, provocando um frescor que agrada a alma e os olhos de quem vê. Depois do primeiro gole de café, corta uma fatia grossa de queijo branco para esquentar na velha frigideira de ferro - herança da sua mãe - para completar o desjejum.
Sem querer, acaba por lembrar dos seus pais, já na presença de Deus. Da mãe, aprendeu principalmente a reverenciar as coisas simples da vida; do pai, o gosto pelo trabalho na roça, os calos na mão e a destreza com a enxada. Os irmãos, espalhados por esse mundão, guardam a mesma marca de nascença.
Pensa em acender o seu cigarro de palha, mas desiste. Anda pigarreando demais e os conselhos da mãe, que ouvia desde a mocidade, parecem ainda mais certeiros. O mugido do bezerro recém-nascido o faz relembrar das obrigações do dia. No pasto, ele já busca o aconchego da mãe, farta de leite, para sustento do filho e do próprio matuto. Como a natureza é generosa.
De esguelha, percebe o quanto o pomar está cheio de frutas. De tons de verde, vermelho e laranja, quase um arco-íris de comer. Um prato cheio também para os passarinhos que não resistem a tanta exuberância. A horta precisa de mais cuidados. A estiagem está severa e a falta de chuva e o tempo seco parecem sacrificar ainda mais as verduras e hortaliças. No sítio vizinho, uma novena está sendo arranjada para rogar por chuva. É quase certo que participe.
Em meio a tudo isso, pensa na sua vida modesta, do seu ranchinho na beira da estrada e na paz que sente no fim do dia. A solidão às vezes bate à porta, faz lembrar dos namoricos que teve e do grande amor que não chegou a vir a ser.
Como numa espécie de oração de contemplação, aceita os rumos da sua existência e se sente pronto para mais um dia de labuta. Tem a certeza que cada dia guarda o seu bocado de esperança e que no final, dormirá o sono dos justos.
Ana Paula Nascimento é jornalista na FOLHA





