O vento batia forte no milharal e agradava os ouvidos de meu avô. Aquele senhor de olhos grandes e rosto enrugado era apaixonado pela lida na roça. Acordava às cinco, tomava o café da manhã com grande ansiedade e partia rumo aos afazeres, que enrijeciam seus músculos mas acalmavam a sua mente.
O sítio dos meus avós ficava cerca de sete quilômetros da onde morávamos. Sempre que meu pai me dava um descanso da lida com as vacas leiteiras, eu ia até lá fazer uma visita a eles. Quase sempre chegava no final da tarde depois de uma breve caminhada e encontrava minha avó descansando de seus afazeres.
Certa vez, percebi que ela andava cabisbaixa e não hesitei em perguntar o motivo. ''Sabe meu filho, seu avô cuida muito bem do campo, mas nossa casa está abandonada. Passei praticamente minha vida toda dentro deste lugar, queria ter uma sala mais bonita, os quartos pintados e decorados e uma área para jardinagem. Coisa de mulher, sabe meu querido?''.
Aquilo me deixou inquieto. Vovó se importava com sua casinha e meu avô não ligava para isso. Cheguei para o meu pai e expliquei a situação. ''Vamos fazer o seguinte, vou te dar uma folga das vacas. Vá a casa de sua avó e a ajude a ter uma casa melhor. Compre o material que precisar, peça para trazer da cidade e use a força de suas mãos para ajudá-la.''
Tomei aquilo como um desafio pessoal. Em poucos dias, as telhas novas, a tinta, os azulejos e os sacos de cimento chegaram para o início da obra. Comecei a trabalhar e o sorriso de minha avó era quase contínuo. Ela me ajudava como podia e dava palpites em todos os cômodos. No final da tarde, meu avô passava por mim meio desconfiando de tudo que estava acontecendo.
Quando a reforma ficou pronta, cerca de dois anos depois, percebi o quanto minha avó estava feliz. Gostava de passear pela casa e chamou toda a vizinhança para ver seu novo lar.
Aquilo foi um divisor de águas na minha vida. Depois desta obra, resolvi deixar o sítio e tentar a vida como empreiteiro na cidade. Dez anos depois, me formei como engenheiro civil. O prazer pela construção e o concreto era maior do que pela terra.
Muito tempo depois meu avô, com seu jeito bronco, me disse que o que fiz pela minha avó, ele, como esposo dela, nunca havia feito nada parecido. Aquilo me sensibilizou e me mostrou que nunca podemos deixar nosso egoísmo se sobrepor aos desejos das pessoas que amamos. Mais do que uma reforma, criei um relacionamento intenso com minha avozinha, inabalável, como as paredes daquela casa.
Victor Lopes é jornalista da FOLHA

mockup