Eu tinha 9 anos quando vó Júlia deixou o interior do Pernambuco e veio morar com a gente no sítio. A promessa que tinha feito ao meu avô de nunca desistir de lutarem juntos naquela terra sofrida e de poucas oportunidades havia sido cumprida mas, com a morte dele, ela poderia finalmente viver outras experiências nessa vida. Até então, eu só conhecia a vó Júlia inventada pela minha imaginação, das histórias muitas vezes confusas contadas por mamãe sobre suas peraltices e dificuldades de criança.
Quando a vi pela primeira vez, descendo do ônibus numa cidadezinha próxima ao nosso sítio, percebi num primeiro momento, que ela não era como imaginava. Os olhos distantes, as muitas rugas próximas aos lábios e a roupa judiada pelo tempo eram as provas do que já havia passado naquelas sete décadas de vida. Porém, quando falou comigo pela primeira vez, me surpreendeu. ''Oi mocinho bonito, será que posso ser sua amiga?''.
Nunca imaginei ter uma vó como uma amiga. O mais estranho, foi o gosto que a vó Júlia começou a ter pela vida a partir daquele instante. Ao contrário dos outros idosos que conhecia - resmungões e enfadados -minha vó estava renascendo, conhecendo um novo mundo que meu avô não permitiu que ela desfrutasse.
Tudo era novo para ela: a pescaria no riozão perto de casa, as descobertas na caminhada pela mata fechada, os doces da fazenda e até o barulho do trator que ela nunca tinha visto de perto. Vó Júlia me acompanhava por onde eu ia e se tornou minha companheira inseparável. Mamãe achava graça ver uma mulher daquela idade com tanta vitalidade e curiosidade pelas coisas simples do dia a dia.
Quando fiz 20 anos e me despedi da minha melhor amiga rumo à faculdade, aquela senhora, agora com 81 anos, mais uma vez me surpreendeu e me fez prometer que a cada duas semanas voltaria ao sítio para ensiná-la a ler e escrever, ''o que me falta nesta vida'', dizia. Fiz daquele pedido uma obrigação. Por pelo menos um ano e meio trabalhei com ela neste propósito. Ensinei o alfabeto, mostrei a importância dos verbos e apresentei a ela o primeiro livro que leu. Esforçada, certa vez me pediu para que eu levasse para ela um poema sobre o qual tinha ouvido falar pelas bandas lá de casa.
Vovó se emocionou com a história contada por João Cabral de Melo Neto, e, mesmo com a voz cansada e o coração fraco pela idade avançada, num almoço de domingo, a última estrofe de Morte Vida Severina. ''E não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida/ Ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica/ Vê-la brotar como há pouco, em nova vida explodida/ Mesmo quando é assim pequena, a explosão como a ocorrida/ Como a de há pouco, franzina, mesmo quando é a explosão de uma vida severina''. Depois dos 70, vó Júlia ''explodiu em nova vida'' pela primeira vez.

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