DEDO DE PROSA - A namorada que virava onça
Aos 22 anos, arrumei uma namorada do jeito que eu sonhava: morena jambo, cabelos compridos, olhos amendoados e sorriso impecável. Junto aos atributos físicos, veio a bagagem, digamos, ''de patricinha''. Isabella só usava roupas da última moda, perfume importado, gostava dos passeios pelas vitrines enfadonhas dos shoppings e vestia bota salto 15 que muitas vezes me deixava até meio inibido, frente aquele mulherão de um metro e oitenta de altura. O que eu nunca imaginei é que por trás daquela moça da cidade, havia uma gata, ou melhor, uma onça escondida.
Explico. Quando conheci seu pai numa ocasião, notei nele um estilo mais rústico. De poucas palavras, era um homem que botava a mão na massa, não perdia o domingo na frente da TV com bobagens. Entretanto, enxergava nele uma pessoa incomodada. Parecia, todo tempo, buscar uma fuga dentro da própria casa - alguns diziam que ele enxergava o mundo em preto e branco.
Por semanas aquilo me incomodou, até que tomei coragem e questionei Bella sobre o velho Antonio. ''É que ele só gosta da ilha. É lá que ele se sente realizado''. A 'ilha', no caso, era uma propriedade que a família da minha namorada possuía na beira do Rio Tibagi. Raramente, todos passavam o final de semana por lá: um momento de êxtase para o patriarca.
Mas a surpresa aconteceu quando fui convidado pela primeira vez para passar um final de semana prolongado na ''selva''. Urbanóide de plantão, só imaginava Isabella atolando seu scarpin de R$ 200 naquela terra úmida e sem conforto. Entretanto, já no primeiro dia do feriadão, fiquei embasbacado: com uma roupa surrada, me chamou para um passeio pelas profundezas do lugar. Com habilidade impressionante, a moça fazia picadas na mata: era uma desbravadora nata.
De repente, numa passada de olhos pelos quatro cantos do lugar, não vi mais Bella. Chamei-a freneticamente, com um sentimento de medo e preocupação. Minutos depois, na beira do Tibagi, vi Antonio alimentando uma linda e pacífica onça. Ele se virou para mim e, tranquilamente, me pediu silêncio com o dedo indicador frente aos lábios.
Desesperado por não encontrar minha namorada, fui voltando para o local de partida e, como mágica, Isabella surgiu em meio aos galhos. Na hora do jantar, Antonio parecia uma nova pessoa. Revigorado, alisava os cabelos da sua única filha, como se celebrasse aquele momento. Nos dias seguintes, muitas vezes ambos desapareciam e, não sei por quê, preferia não questionar aqueles momentos. Os anos se passaram, meu sogro já partiu, mas de vez em quando me deparo com um olhar distante de Bella. Inquieta como o pai, ela parece querer passar um tempinho no seu habitat natural, enxergar a vida com outros olhos.
Victor Lopes é jornalista na FOLHA





