Os cerca de 500 quilômetros que separavam a Capital de Getulina, cidade pequena e simpática no interior paulista, eram cansativos e pra ser bem sincera enfadonhos. O papai sempre preferia dirigir à noite, saíamos de casa no começo da madrugada e a mamãe era obrigada a nos tirar da cama, muitas vezes na melhor hora do sono. Mesmo cansada, eu não conseguia dormir bem, pensava que disperta fosse mais útil e pudesse servir como uma auxiliar nas longas horas pela estrada.
Como filha do meio, ia no meio. Os meninos mandavam e eu obedecia. Nas curvas, faziam de propósito, me espremiam e se eu reclamasse, dava rolo. O papai não gostava de um pio e se desse briga, ele girava o ''alicatinho'' para aonde a mão dele alcançasse e dava um beliscão. Não sei por que não ficávamos quietos, pois era assim toda noite em casa: papai chegava e todo mundo tinha que ficar quieto, principalmente na hora do Jornal Nacional. Quem abrisse a boca ganhava um baita xiiiii, monossilábico, taciturno e expulsivo. Mas hoje entendo: criança gosta de brincar e falar em qualquer lugar.
Hoje entendo melhor as crianças e melhor meu pai. Era só o jeito dele. Mas o ar de Getulina fazia muito bem a ele, que para vencer na vida adotou a terra da garoa. Em Getulina, o Pedrão, era Pedrinho, ou o eterno Foguinho, apelido herdado pelo cabelo ruivo. Depois que chegávamos à cidade natal, meu pai se transformava, sorria, revia os amigos, parentes, estacionava e deixava a porta do carro aberta e fazia intermináveis visitas. Notícias de quem chegou no mundo e de quem se foi, atualizadas. Tio Tarcísio era o dono da funerária e tia Gersinha, diziam que andava mais que notícia ruim por Getulina.
Uma semana era pouco em Getulina. Então, o certo era ir alguns dias antes do Natal, e ir embora só depois do Ano Novo. Meu pai ia à loja do seo Argeu, à farmácia, à sorveteria e nós, os três irmãos, brincávamos e brigávamos o tempo todo. De tarde, era um ritual ir para a praça, contar as badaladas do sino, e observar tanta gente arrumadinha saindo da missa, de cima do coreto central.
O ar sisudo, desconfiado e arredio do meu pai não aparecia um só dia em Getulina, ele não acordava ouvindo Zé Betio ou Jovem Pan anunciando ''vambora, vambora, olha a hora vambora'', não apressava a janta para ver o Jornal Nacional e tinha mais tempo para ser feliz. No ano de 1996, a violência da capital fez o papai escolher Pirassununga. Hoje, não sou mais a do meio, sou a segunda, pois o Kiko aumentou a família, aprendi a me defender dos meninos e meu pai é muito feliz e vive de forma equilibrada, ora o Pedrão, ora o Pedrinho. Mas eu amo os dois, porque entendo que o meio influencia muito as pessoas em seu modo de ser e de viver.
Walkiria Vieira é jornalista na FOLHA

mockup