DEDO DE PROSA - À luz das lamparinas
Enquanto o mundo discute a eficiência energética, a evolução das lâmpadas coloca novos produtos no mercado, colocando os modelos incandescentes definitivamente na sepultura, minha lembrança vai lá para a década de 1970, quando ainda menina me divertia no sítio, nas casas de meus avós e tios, à luz das lamparinas. Dia desses, inclusive, numa das muitas quedas de energia elétrica em minha casa, comentei com meus filhos que teria de incorporar a peça aos nossos objetos de uso doméstico.
"Lamparina, o que é isso mãe?", perguntou minha filha caçula, que no auge dos seus 12 anos nunca ouviu falar da "eficiente" ferramenta de iluminação. Expliquei seu uso e que de tão comum nas residências sem o benefício da eletricidade era produto de destaque nas prateleiras de qualquer lojinha ou armazém, e até mesmo confeccionada pelo próprios moradores, com alumínio de panelas velhas, latas vazias de óleo, extrato de tomate, ou o que mais encontrassem. Seu formato era o de uma base, como o de uma lata de milho verde, onde se colocava o líquido inflamável que alimentava a chama, com uma superfície afunilada por onde saía o pavio condutor dessa chama. Uma pequena alça era fixada na lateral para facilitar o manuseio ou o transporte. O querosene, inflamável mais usado, fazia parte da lista de compras na vendinha do seu Léo, com tanta prioridade como o sal e o açúcar.
Depois de minhas explicações e dos espantos e comentários de quem vive no mundo das tecnologias, e que não consegue imaginar como as pessoas "sobreviviam" com tão pouca luminosidade, me perdi por alguns minutos no passado não muito distante, mas que rendeu momentos de muita diversão.
Entre as muitas lembranças estão a do meu avó, sentado em seu banquinho, ao lado do fogão a lenha, com alguns chumaços de algodão recém-colhido, retirando as sementes, modelando o cordão para seu estoque de pavios. Pois, além dos que iam imediatamente para o uso, ele guardava alguns de reserva para possíveis emergências. Pedaços de tecido ou de cobertores velhos também eram usados para o mesmo fim.
Algumas casas mais "equipadas" até possuíam outras fontes de iluminação um pouco mais fortes, como o lampião a gás, ou as lâmpadas ligadas a baterias automotivas. Mas eram as lamparinas as mais usadas, por poderem ser levadas na mão para qualquer canto da casa. E eram elas que após o jantar garantiam a luz para os momentos de diversão entre eu e meus primos no quintal da casa, com o maravilhoso reforço da lua e das estrelas. Esconde-esconde, balança-caixão, pega-pega, passa-anel estavam entre as brincadeiras mais comuns. A claridade emitida? Ah, sim! Era tão eficiente quanto a da atual iluminação urbana.... ao menos para nós que não dispúnhamos de nada mais eficiente e que, naquele momento, não fazia diferença, não nos tirava a alegria e a animação da noite.
Célia Guerra é jornalista nesta FOLHA





