DEDO DE PROSA - A leitoa Branquinha
Quando era mais criança do que hoje, o Natal era sempre uma época de muita gente em casa, muita comida na mesa e muita festa. Era muita fartura no sítio. E quase tudo saía da nossa terra. A vendinha do bairro servia para fornecer apenas um ou outro item mais elaborado.
E na ceia de Natal o que não faltavam eram as carnes assadas. Cabrito, frango, pato e a estrela da noite: a leitoa. Meu avô sempre mantinha o chiqueiro bem servido de porcos. A Dona era a porca mais antiga e a que paria os leitõezinhos que eram servidos nas festas de fim de ano ou em alguma ocasião mais especial, como casamento ou batizado. Dona tinha recebido este nome de meu avô por ser mandona e brava. Quando tomava água, ninguém chegava perto. Quando servia a comida, era um deus nos acuda. Dona mandava o dente e espantava os menores, as fêmeas e até os machos mais velhos.
Num ano, Dona pariu cinco leitões. A prole crescia robusta e logo meu avô definiu qual das crias seria servida no Natal daquele ano. Foi uma decisão bem fácil: Branquinha, por ser a mais gordinha. Mas ela era também a mais meiga e dócil. Era brincalhona com os irmãos, carinhosa com os mais velhos e sempre fazia uma graça quando alguém se aproximava.
Mas chegou o dia da sangria. Como era de costume, meu avô nunca deixava crianças e mulheres se aproximarem do chiqueiro quando ia abater algum animal. Com os porcos ele era ainda mais rígido. Dizia que estes animais não morriam quando tinha alguém por perto que demonstrava dó ou compaixão. O bicho urrava, urrava e não morria.
Mas no abate da Branquinha, o roteiro não seguiu como o esperado. Assim que meu avô entrou no chiqueiro, viu a leitoa quietinha em um canto. Ao se aproximar, a bichinha deu um pinote, passou por entre as pernas dele e, aproveitando a porteira aberta, fugiu em direção da casa. Entrou pela sala, atravessou o corredor e só parou embaixo da cama de meus avós.
Meu avô partiu decidido para a captura. Mas ao se aproximar, Branquinha lançou um olhar de piedade que abateu o velho. Tocado de uma maneira que nunca tinha visto na minha vida, ele se ajoelhou ao lado da cama, passou a mão sobre a cabeça da porquinha e decretou: "Neste Natal não vai ter leitoa na mesa". E fim de papo.
Daquele dia em diante, meu avô continuou criando porcos no sítio. Mas nunca mais matou nenhum dos animais que criava para a ceia lá de casa. Desde então, as leitoas que iam para a mesa na noite de Natal eram sempre compradas já mortas de algum vizinho ou criador da região.
E Branquinha viveu por muito tempo entre nós. Virou quase um ente da família. Circulava pelo quintal, fazia farra com a criançada e até enfrentava os sapos que, vez ou outra, se aproximavam da casa.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





