DEDO DE PROSA - A enxada e o homem
Na roça da minha infância e de meus ancestrais, máquina assim como as de hoje não havia. Quase tudo na lida no campo era resolvido na toada da enxada. Uma ou outra atividade exigia alguma ferramenta mais específica. E nem por isso a gente passava fome ou não conseguia lucro necessário para sustentar a todos. Na produção familiar tudo se plantava e, bem ou mal, tudo se colhia.
Meu avô tinha o que se podia chamar de coleção de enxadas. Tinham as menores. Umas outras um pouco maiores. E as bem grandes. Todas encabadas por ele próprio. Ele ia no armazém, escolhia a que melhor lhe convinha para a atividade que precisava. Já no sítio, acertava o cabo, colocava a cunha e calibrava a ferramenta dando alguns golpes na terra. Ensinava que enxada boa não podia ser torta e merecia sempre ser encabada com madeira forte, resistente.
E ele as usava até gastar o aço. ''Homem decente se cria é no cabo da enxada'', alardeava, quando alguém desconversava para ir para a roça. Para ele, a ferramenta era uma extensão também viva daquele que a empunhava. Por conseguinte, ela própria era o homem e o homem era ela. Não era mera representação. Um sujeito bom de lida era um sujeito pronto para a vida, capaz de enfrentar os desafios impostos pelo imponderável destino.
Meu avô, levava com orgulho a enxada sobre os ombros. Uma imagem que, na minha inocente ignorância de criança, não tinha nenhum lirismo nem merecia um olhar mais cuidadoso. Ele seguia com meus tios, uns camaradas e os cachorros. A gente espiava da porteira até dobrar a serra. Depois, íamos fazer outras coisas menos importantes.
Agora, revendo a mesma cena dançar na memória, repenso a história e tenho a concluir que não era meu avô que levava a enxada. Eles se juntavam num só ser durante aquela dura rotina de trabalho na roça. Um não existia sem o outro e ambos tinham os mesmos propósitos. Dialogavam com uma cumplicidade de quem dividia segredos.
Talvez por isso, no retorno da roça, ele a trazia de volta com tanto zelo, reverência e respeito. E antes de se separarem, no fim do dia de trabalho, havia um último ritual. Com paciência, meu avô caminhava até o paiol e ajeitava solenemente sua companheira num cantinho bem protegido. Só com suas iguais, a enxada podia, enfim, descançar até o dia seguinte.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





