No mês de outubro, havia um ritual cumprido anualmente em casa e pela vizinhança. Na véspera do dia 12 de outubro, minha família aprontava as malas e seguia até o campo de futebol, onde encontrava os outros moradores da vila. Alí, ficávamos a esperar o ônibus fretado para nos levar à Aparecida do Norte.
Minha família, católica, viajava todo ano até a cidade da padroeira do Brasil. Éramos devotos da santa. O ônibus que levava quase toda a comunidade era muito simples. Já meio desgastado pelo tempo, o carro seguia devagarinho durante toda a madrugada, vencendo as muitas curvas e montanhas.
Os primeiros quilômetros eram uma festa para as crianças. ãamos em algazarra, afinal era a única viagem que fazíamos durante todo o ano. E como o dia da santa coincidia com o Dia das Crianças, sempre ganhávamos alguma lembrancinha. Coisas muito simples, mas que renovava nossa vontade de continuar sendo criança para sempre. Lá pela metade do trajeto, a molecada exausta se entregava ao sono. E continuava sonhando.
Minha mãe me cutucava já perto do destino final, com o céu ainda cheio de estrelas. Era hora de desamassar a cara e ajeitar de novo as roupas e os sapatos. O café era servido ainda em movimento. Cada um levava um bolo, um salgadinho, um leite e todos se serviam comunitariamente. A estratégia ajudava também a não perder tempo, porque o tempo era curto.
Já em Aparecida, o ônibus estacionava e todos seguiam diretamente da igreja velha até a monumental basílica, atravessando a passarela que, de tão alta, dava vertigem. A primeira missa acontecia ainda de madrugada e minha mãe fazia questão de assistir e o sol ia iluminando aos poucos a imensa catedral.
Depois, a gente seguia a multidão até avistar a imagem original da santa, aquela resgatada por pescadores nas águas do Rio Paraíba do Sul no Século XVIII. Fazíamos orações e agradecimentos, descíamos até a sala dos pedidos, onde acendíamos velas, passávamos pela sala dos milagres - repleta de próteses, fotos, vestidos de noiva, objetos pessoais. E ficávamos circulando pelo complexo religioso até a missa das 11 horas. Encerrada a celebração, íamos para o lado de fora da basílica, acompanhar o pipocar dos fogos de artifício.
À tarde era reservada aos passeios. Íamos brincar no parque, comer algumas besteiras, tirar foto com os lambe-lambes em frente à velha matriz. Enfim, voltávamos ao ônibus. Exaustos, dormíamos durante todo o trajeto de volta. Retornávamos para o sítio cansados, mas revigorados na alma.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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