Até hoje, quando ouço o canto de canarinhos, me lembro daquele generoso quintal, que começava ao pé da escada da casa amarela. Ali tinha um pouquinho de tudo o que fora possível trazer da fazenda. Muitos pés de frutas, ervas de todo tipo e, acima de tudo, as flores que minha avó adorava. No meio deste pequeno paraíso, o caçula dos meninos havia cometido o principal delito ecológico de sua vida, instalando um grande viveiro para abrigar seus passarinhos multicoloridos, uma grande paixão de juventude.
O sobrado havia sido comprado para suprir as novas necessidades da família, agora com filhos crescidos, que precisavam estudar e trabalhar. A vida rural tinha ficado para trás, mas ali, na construção próxima ao rio que corta a cidade, os novos proprietários recriaram seu antigo mundo como condição para sobreviver na realidade urbana, já naquela época cheia de buzinas e roncos de carros. Em cada planta do jardim, em cada nota entoada pelos canários e em cada prato preparado no fogão à lenha tinha um pouquinho dos dias passados na velha Fazenda União.
Eu não tinha noção disso tudo quando perambulava pelos perfumados canteiros e me deliciava com a ceia preparada com primor nas noites de Natal. Mal sabia eu que cada delícia posta à mesa era resultado de uma longa tradição do campo.
As temporadas vividas nesse universo particular foram interrompidas pelo progresso. Para surpresa da família, o crescimento da cidade levou a administração municipal a tomar uma decisão: era hora de construir um novo terminal rodoviário, e o local escolhido foi justamente aquele, ocupado pela casa de muitas escadas, muitos quartos, muitos bichos, muitas plantas, muita vida. Em pouco tempo, todos se viram condensados em uma construção de cômodos apertados, onde sobrava concreto e faltava frescor. Passar férias na casa dos avós tinha perdido a graça.
Vem deste tempo o arrepio que me dá a palavra 'desapropriação'. Em Londrina o termo é recorrente, dada a velocidade com que a cidade cresce e avança para regiões até alguns anos atrás tomadas por chácaras e sítios. Não tem como ser diferente. As demandas mudam, o desenvolvimento tem que ser garantido. Mas também não há como ignorar as muitas histórias de vida reduzidas a lembranças. Já crescida, passei por diversas vezes pelo terminal rodoviário da cidade paterna e reconheci a importância da obra, mas em todas as vezes que avistei aquelas plataformas, enxerguei ali a velha casa amarela.
Silvana Leão é jornalista na Folha de Londrina

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