DEDO DE PROSA - A Capelinha
Tudo era muito simples. Chão de cimento rústico, paredes sem ornamentos, umas janelinhas com vidros transparentes de cada lado. No altar, destacava-se ao centro a imagem de São Benedito. Acima dela, uma grande cruz em madeira ladeada por dois grandes vasos com flores completava o bucólico cenário religioso da capelinha que ficava a pouca distância do sítio.
A igrejinha ficava no alto de um morro, bem no centro da comunidade e ao lado de uma encruzilhada, que fazia a ligação com outros sítios e fazendas na região. Pequenininha, repousava ali protegendo a família há mais de oito décadas. Seu desenho simples, fachada sem extravagância e torre de uns quatro metros que guardava o sino comprovavam que a obra tinha sido tocada pelos próprios moradores, os antepassados. Por isso, era tão querida e respeitada.
Ali eram rezadas as missas de domingo. Também se realizavam ali as quermesses e festas de batizados e casamentos. Era ainda na capelinha que a comunidade se reunia para discutir problemas comuns, coisa rara naqueles tempos. E era ali que todos também estudavam catequese e celebravam a primeira comunhão. Eu, por exemplo, tive minhas primeiras lições religiosas sentado naqueles bancos de madeira. E foi assim, servindo a comunidade, que a capelinha foi criando vínculos com as famílias, a tal ponto de se tornar um símbolo do lugar.
Certo dia, um temporal se fez ver no horizonte de uma tarde de fevereiro. As nuvens negras avançavam junto com a ventania que parecia ganhar força a cada palmo que percorria em direção ao sítio. Na rota da tempestade estava a capelinha. Impiedoso, o vento atingiu em cheio a frágil estrutura. Num golpe só, arrancou o telhado e levou consigo a torre do sino. No interior da capela, os bancos foram revirados, os vidros das janelas estilhaçados, os vasos quebrados. Apenas a imagem de São Benedito sobrou intacta no altar.
Não havia ninguém por perto, mas rapidamente a notícia tenebrosa da destruição da capelinha atraiu toda a comunidade ao redor das ruínas. A chuva passou ligeira. Choro, desconsolo e resignação ante ao imponderável tomaram conta de todos, que ficaram em silêncio, prostrados diante da dolorida cena. A história de gerações estava quase toda no chão. Mas assim mesmo, todos fizeram um pacto para reerguer o pequeno e maior patrimônio daquele povo.
Ainda enlutadas, as mulheres começaram a limpar e organizar o que a tempestade não havia danificado. Aos homens couberam as tarefas mais pesadas. Retirar os entulhos, remover os tijolos e madeiras e começar a reconstrução. As crianças ficavam por perto, ajudando no que podiam. Em poucas semanas, a igrejinha estava novamente de pé. Reconstruída tal qual era antes do desastre. Numa manhã de domingo, famílias novamente se reuniram na capelinha com a certeza de que um patrimônio que é de todos nunca desaba ou desaparece.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





