Orientações médicas e o forte apelo publicitário quase deixam a gente doida quando o assunto é trocar o colchão. Espuma da Nasa, molas ensacadas, densidade ideal, produto que se adeque ao seu biotipo, que ceda às curvas do seu corpo... Afinal, é ele quem garante a qualidade do seu sono.
Deixando a modernidade de lado, entrando no meu ''túnel do tempo'' - apenas quatro décadas atrás, que nem tanto tempo faz - me lembro dos ultraconfortáveis colchões de palha de milho da casa de meus avós, no sítio da Vila Arco. A cantiga de ninar estava garantida, bastava uma mexidinha no corpo.
A primeira gostosa reação era, literalmente, afundar na cama quando eu e meus primos nos jogávamos sobre o colchão. Um detalhe, como a casa era pequena e os netos muitos, era preciso saber dividir espaço, cinco ou seis numa cama de casal. Mas a humildade do ambiente jamais afetou a diversão das férias.
Para sanar a curiosidade, vai uma breve descrição do colchão: uma espécie de saco, feito de um tecido grosso de algodão - muito comum nas lojas de tecido da época -, listrado, com duas aberturas na parte superior, recheado de palha de milho. Não era qualquer tipo de palha, não! Do milho guardado na tulha, no fundo do quintal, depois de limpar algumas espigas para tratar porcos e galinhas, minha tia separava as melhores e mais secas e as guardava. Quando atingia o volume ideal, elas iam para uns dias de sol, no antigo terreiro de café. Tudo para garantir a qualidade e durabilidade do colchão.
Todos os colchões da casa eram assim, feitos artesanalmente. De manhã, após levantarmos, minha tia e minha avó vinham arrumar a cama. Lembra aquelas aberturas superiores do saco de tecido? Elas permitiam que, com as mãos, toda a palha fosse remexida, desamassada, devolvendo à cama o formato anterior, deixando-a pronta para uma nova e confortável noite de sono.
Com passar dos tempos, os colchões de palha foram trocados por modelos que demandavam menos atenção e, talvez, garantissem mais conforto. Entraram em cena os modelos industrializados, com uma armação de arame, recheados de capim. Até chegar ao que eu durmo hoje e que segue todas as boas recomendações. Mas a cantiga de ninar promovida pelo atrito das palhas de milho enquanto nos mexíamos na cama, ah!, não tem substitutos.
Célia Guerra, é editora na Folha de Londrina

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