DEDO DE PROSA - A boa-nova das cigarras
Há quem não goste do barulho ensurdecedor das cigarras. A mim elas não incomodam, apesar da algazarra que fazem nestes meses. Na infância, quando as mangueiras e goiabeiras eram minha segunda casa, o canto destes insetos eram um aviso de que a melhor época do ano havia chegado, com suas tardes calorentas convidando para as brincadeiras no quintal. As cigarras eram - e são - o esperado sinal do tempo da fartura de frutas apanhadas no pé. Hoje, que não tenho uma mangueira no quintal, me contento em correr para o mercado e procurar mangas mais saborosas que aquelas vendidas fora de época, assim que começo a ouvir um ou outro canto típico de minhas velhas conhecidas.
Mais do que anunciar a primavera e a proximidade do verão, as cigarras nos lembravam que os dias caminhavam para as férias e para o Natal - com sua aura mágica e a possibilidade de ganhar o sonhado presente. Aquele barulho todo na natureza era uma espécie de mensagem de boas-novas. Hoje eu sei que o canto incansável tem o objetivo de atrair os pares para o acasalamento. Depois de fecundadas, as fêmeas depositam os ovos em rachaduras nos caules de plantas hospedeiras. Depois que os ovos eclodem, as ninfas, fase jovem da cigarra, descem por fios de seda até o solo, onde elas ficam a maior parte da vida. Ali, sob a terra, podem permanecer anos em sono profundo, para um dia também entoarem o canto capaz de causar reações tão distintas.
Recentemente descobri que até mesmo as cigarras se protegem contra o volume intenso de seu próprio canto. Tanto o macho como a fêmea dessa espécie de insetos possuem um par de grandes membranas que funcionam como orelhas. Essas membranas, conforme pesquisei, são os tímpanos, conectados ao órgão auditivo por um pequeno tendão que reage quando o macho canta, dobrando-os para que o som alto não lhes provoque danos.
Os antigos diziam que as cigarras cantavam para chamar chuva, por isso a intensidade do canto nos dias quentes. Para criança crescida na roça ou na cidadezinha do interior, a barulheira é um convite para se lambuzar de manga madura. Burbon, manteiga, rosa, coquinho, espada. Me lembro dos sabores, formatos e colorações de cada variedade, e também da ordem em que os pés ficavam no quintal.
Que prazer imenso aquele, pegar a fruta fresquinha, lavá-la rapidinho e rasgar sua casca no dente. Nada de faca, garfo ou pratinhos. Como diz a propaganda, é coisa que não tem preço. Assim como não tem preço aprender a identificar as estações do ano pelos sons dos dias, exercitar o equilíbrio no galho generoso da árvore preferida, saber que da carcaça presa ao tronco saiu um inseto novinho em folha. Infância assim é herança valiosa para toda a vida.
Silvana Leão é jornalista na FOLHA





