DEDO DE PROSA -
Em outubro, antes de o sol sumir totalmente por detrás das montanhas, as fêmeas de saúvas - também chamadas de içás ou tanajuras - saíam do cupinzeiro e se punham a zunir velozes a baixa altura, causando um alvoroço danado entre a criançada. Nesta época, bastava cair aquelas tempestades das tardes e a temperatura subir para elas surgirem às centenas. Os adultos diziam que elas saíam para namorar e procriar. Nós moleques, por outro lado, estávamos mais interessados em atrapalhar a farra das formigas.
Sempre que chovia e fazia calor, a gente corria para capturar as maiores, as tanajuras de bundas enormes. Enchíamos latas com as formigas. Vez ou outra, minha mãe extirpava as cabeças e jogava apenas os traseiros dos insetos sobre a chapa do fogão de lenha. Quando começava a ouvir uns estalinhos, ela jogava as bolinhas torradas numa panela, juntava uma colher de manteiga e acrescentava farinha de mandioca. Depois, acrescentava uma pitada de sal e servia a farofa.
Confesso que não era minha comida preferida. Achava as bundinhas das saúvas ardidas, sem graça. Eu e a maioria dos meus amigos gostávamos mais de fazer outras coisas - bem mais sádicas, admito - com os pobres insetos.
Nossa alegria era correr atrás das formigas e encontrar aquelas bem grandes, que tinham traseiros e asas enormes. Feita a captura, encontrávamos um graveto com a ponta bem fina e espetávamos as pobres. As coitadinhas continuavam tentando voar e, no sacrifício, batiam cada vez mais velozes as asas transparentes até quase conseguirem fugir. Enquanto isso, os meninos acirravam a disputa para ver qual saúva resistiria por mais tempo.
Admito que, vista assim com os olhos de hoje, nossa brincadeira de infância parece cruel. Se permite, caro leitor, tenho argumento em minha defesa. Na roça, as saúvas não eram as criaturas mais adoradas. Nunca gozaram de boa reputação pois, quando saíam para comer, devoravam sem dó o que viam pela frente. As plantações sofriam com a fome sem limites e as presas poderosas das formigas. Por isso, os adultos pouco se importavam para o que fazíamos com elas, porque a fama de ferozes predadoras das lavouras sempre as colocava como uma perigosa praga a ser combatida.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA DE LONDRINA





