De volta ao interior
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de abril de 2020
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Da minha infância tenho duas saudades: das Graças, interior do Paraná, e de Taiaçu, interior de São Paulo, por terem sido o cenário das minhas mais belas recordações . Ambas muito diferentes, mas igualmente felizes, contrastantes, pelo cheiro, pela terra, pelos rios, pelas casas e pelas pessoas.
Aquele sítio em Taiaçu era um paraíso que tenho gravado, com detalhes, na memória. Lá, eu tinha um monte de tios e tias, vovô Antônio e Voninha ( vó Aninha), vizinhos e outros familiares e amigos de minha mãe e suas respectivas casas de alvenaria, diferentes das casas do Paraná, de madeira.
Adoravam reinar naquele quintal enorme, cheio de bananeiras e mangueiras, o grande pé de Jatobá, cuja sombra era maior que a casa e que minha mãe dizia ter plantado. As macaúbas, a paineira em flor com aquele tronco cheio de bicos, o mangueirão em que os bezerros eram separados e os tios tiravam leite das vacas, todas as manhãs, quando a gente corria com a canequinha de alumínio e o leite saía quentinho, espumando, deixando um bigode branco, motivo de risadas e felicidade em nossos rostos de criança.
No poço raso a gente espiava, às escondidas,fascinados, as samambaias e a água salgada que subia nos baldes. Já a mina d'água, um pouco mais adiante, era cuidada com muito zelo pela tia Lola. Havia o paiol, cheio de milho, cheirando a veneno, onde a gente subia atrás do bando de gatos ariscos e lindos. Até no chiqueiro, encharcado, onde porcos de todos os tamanhos se enlameavam, ignorávamos o cheiro, subíamos num toco e ficávamos admirando os porquinhos...
Para ir na casa do tio Dito, que eu tanto amava, corria pelo pasto, morrendo de medo de encontrar uma cobra pelo caminho. No pasto havia se formado uma enorme erosão que eu ouvira dizer fora feito pela Mãe de Ouro, uma espécie de fogo, responsável pela grande valeta.
Na frente da casa do tio tinha uma mata linda, intocada, com um cheiro característico, úmida e cheia de folhagens, pássaros e bichos, inclusive...cobras e sapos. Uns vizinhos do sítio também ficaram na lembrança: o Totonho, com uma família numerosa, muito simpático, branquinho, olhos azuis e sotaque italiano com sua família numerosa; a Portuguesa e o Manecão, ela alta, magra, trajando roupas pretas, tamancos e lenço na cabeça, uma figura; a Fazenda do "Esmerardo" ; o Zago, do outro lado do rio..
Mas meu sonho mesmo era ir nesse rio que separava as propriedades, pisar naquela água branquinha, pescar com varinha ou peneira, mas ninguém tinha tempo e me punha medo, falando para não ir lå sozinha . Então invejava os passarinhos que voavam e desciam naquelas águas. Lembro ainda de ir apanhar palmito no pé com minha mãe e a Voninha, de colher ovos nos ninhos com a Tia Lola, de ficar brincando perto do Vovô Antônio, enquanto ele descansava à sombra do Jatobá .
Para irmos à cidade ou de lá para o Sítio usávamos charrete. A tia Maria enchia a charrete de primos e lå íamos nós na maior felicidade. Tia Maria era uma pessoa maravilhosa, personificação do bem, tão acolhedora, cheia de paciência, sua casa era o ponto de convergência de todos os parentes.Mas do tio Vilson eu e meu irmão tínhamos um medo danado!
A Tia Lola tinha mania de limpeza e me ensinou isso, além de me ensinar a rezar, como fez com tantos sobrinhos... Como dizia, tínhamos muitos tios e tias: o tio Alonso, bonito como ele só, o tio Luiz, muito brincalhão e bem humorado,o Tio Tuna, que só via de vez em quando porque também veio para o Paraná, o tio Nelson, importante, que morava em São Paulo, a Tia Ermantina, linda, branquinha e de cabelos negros, a tia Nega, muito alegre, vaidosa, amorosa e engraçada ...
Era a família paulista que eu tanto amava e da qual recebi tanto amor. A cidade era outro encanto para mim. Areia branca, casas de alvenaria, algumas branquinhas, como as do sítio, as casas com suas portas e janelas dando diretamente para a rua, a maioria sem muros, portas destrancadas, a praça, a Igreja de São José com seu relógio batendo a cada 15 minutos, como deve acontecer até hoje, as manhãs claras, os rios em abundância que, volta e meia transbordavam e separavam as pessoas mas, ao mesmo tempo, promovia a solidariedade entre os familiares, amigos e vizinhos.
Faz tão bem recordar a fala caipira e mansa dos tios, a reunião em torno da imensa mesa de madeira, principalmente à noite, à luz das lamparinas, quando todos iam se ver e conversar, além de ouvir a Rádio Nacional de São Paulo com suas músicas sertanejas e seus reclames inesquecíveis, como o da Cica!
Quando voltava de lá ficava triste e trazia a mala cheia de saudades...Penso que já foi dito e bendito que as lembranças felizes da nossa infância são levadas para toda a vida e é a mais pura verdade! Abro devagar a janela para espiar o passado e, bem escondidinho, lá dentro, estou de volta ao interior.
Estela Maria Ferreira, leitora da FOLHA.


