De quem é a culpa?
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de dezembro de 2001
Ivano Luiz Carniel 
''Existem três maneiras de um homem se destruir. A mais rápida é através do jogo. A mais deliciosa é com as mulheres. A mais segura é investir na agricultura.''
( Roberto Campos 1917- 2001)
Ao longo dos anos, têm sido veiculadas idéias sobre a agricultura que, embora diferentes em sua roupagem exterior, carregam a mesma mensagem, com a implicação de política agrícola. Basicamente, é transmitida a idéia de que não é necessário se preocupar com a agricultura, ou estimulá-la. Ou que fazer isso constituiria erro de política econômica. Suportar a agricultura seria mau manejo dos recursos da sociedade.
A série de argumentos parece começar com teorias da década de 50, e pode continuar nos dias atuais com uma expectativa errônea do processo de globalização.
Recentemente, vários economistas agrícolas chegaram a conclusão de que o setor primário já não tem a mesma importância de antes. A base para tal afirmação é a queda na participação do setor agrícola no produto nacional, no emprego e nas exportações. O raciocínio é certo do ponto de vista aritmético, mas errado do ponto de vista econômico. O raciocínio aritmético verifica que a parte do PIB, do emprego e das exportações está diminuindo. Conclui então que a importância do setor está diminuindo. Mas não nota que a agricultura está crescendo, e que a contabilidade nacional passa a contabilizar fora da agricultura tarefas que antes eram executadas nas próprias fazendas, como beneficiamento e armazenamento.
O governo faz a seguinte conta aritmética para justificar tal argumento: em 1978 requereu-se R$ 497,00 de crédito oficial para produzir uma tonelada de grão; em 1997 requereu-se apenas R$ 62,70 por tonelada em crédito oficial ( em reais deflacionados ). Em 1978 foram necessários R$ 17,6 bi para uma produção de 37,2 mi/ton. Em 1997 foram utilizados R$ 6,7 bi para uma produção de 78,4 mi/ton. Na safra de 2002 anunciam-se R$ 9,04 bi ( somente custeio ) para uma produção próxima de 100,0 mi/ton. Pelo que se vê, no passado não faltou dinheiro e sim diretrizes corretas.
O que esperar de um Ministério com 140 anos de existência e que já teve 116 ministros de Estado da Agricultura, demonstrada aí a sua fraqueza institucional. A falha do raciocínio está em não compreender as interações entre os diversos setores econômicos, em esquecer os vínculos entre atividades de diferentes setores, em olhar a questão do ponto de vista parcial, esquecendo os efeitos de equilíbrio geral.
As caracterizações da agricultura brasileira estão em sua maioria carregadas de pressupostos ideológicos e de baixíssima visão empresarial e são muitas das vezes intrinsecamente paternalistas.
Muitos dos agricultores não se emanciparam desta caricatura econômica que o governo ofereceu nos últimos 20 anos, não se integraram a agricultura competitiva, caso daqueles agricultores que só sobreviverão se forem empresários e eficientes e mercadologicamente orientados dentro de uma cadeia agroprodutiva que possa atender às necessidades de um mercado cada vez mais competitivo e que exige qualidade e preço. A agricultura terá cada vez mais sua irrelevância, onde não cabe mais soluções a cabo de enxada.
O agronegócio brasileiro é o setor que pode dar alento a economia do país, já que se projeta para o Brasil no ano de 2002 uma participação de 8,62% do mercado global ( aproximadamente US$ 520 bi ).
A agricultura, que graças as suas enormes potencialidades como geradora de empregos, renda, alimentos, matérias-primas e divisas poderia e deveria ser a grande solução para os problemas dos desempregados, dos agricultores, dos consumidores, das agroindústrias e da economia global dos países. Mas devido ao seu lamentável abandono constituem-se paradoxalmente em um grande problema para todos eles. É necessário revalorizar e elevar o status da agricultura para que ela recupere o papel, que nunca deveria ter perdido, como eficiente solucionadora dos grandes problemas nacionais.
Estas proposições incorporam e traduzem a reflexão da agricultura brasileira e refletem o esforço de por meio da articulação entre o público e o privado, aperfeiçoar os instrumentos de ação governamental, são mecanismos que de certa forma viabilizam a inserção competitiva do agronegócio brasileiro no âmbito de uma economia aberta às importações, mas ao mesmo tempo, exigente quanto ao crescimento de sua participação no comércio internacional.
O autor é Técnico Agropecuário, Bacharel Administração de Empresas, e funcionário da SEAB/Deral em Pato Branco-PR.


