De olho na soja do vizinho
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sexta-feira, 21 de março de 2003
Adriana De Cunto<br> Reportagem Local 
A viagem técnica organizada pela Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) à Argentina teve um tema polêmico acompanhando os cerca de 50 participantes no trajeto de mil quilômetros entre Buenos Aires e Mendoza: a soja transgênica. O assunto não poderia mesmo ser deixado de lado, já que no país vizinho, a soja geneticamente modificada é cultivada sem restrição e é a estrela dos 70 milhões de toneladas de grãos que deverão ser produzidos por lá este ano.
Produtores argentinos visitados pelos paranaenses confirmaram que a totalidade da soja produzida no país teve como origem as sementes modificadas geneticamente. Na Fazenda Posta Alta, na província de Buenos Aires, o proprietário Homero Broggi enalteceu as vantagens da transgênica dizendo que o custo de produção é bem menor do que a convencional. Conforme o vice-presidente da Faep, Nelson Teodoro de Oliveira, a diferença entre o custo da produção da transgênica para a convencional é de cerca de 150 dólares por alqueire paulista. Oliveira lembrou que a soja argentina impressionou pela ''limpeza'', livre de pragas.
A visita ''in loco'' aos pampas derrubou a idéia que muita gente tinha de que a soja transgênica tem maior produtividade. Os argentinos explicaram que a mudança do plantio da convencional para a transgênica não implicou numa maior produção. A fazenda de Broggi, por exemplo, produz 3.200 quilos por ha. No Paraná, um produtor de soja com grande tecnologia pode conseguir de 3.700 a até 4.000 quilos por ha. Mas a média de produção no Paraná é de 50 sacas por hectare (2.500 kg).
A informação passada por Broggi e outro produtor da mesma província, Pedro Jaquelin, de que a soja transgênica produzida na Argentina não encontra restrições para ser comercializada em outros países foi recebida com reserva pelos paranaenses. Afinal, a França e a Alemanha já declararam contrárias à idéia dos transgênicos e a China, principal importador desse grão do Brasil, acaba de criar uma legislação rigorosa contra organismos geneticamente modificados, principalmente grãos oleaginosos. Para não perder esse importante mercado, o governo brasileiro já entregou à China um certificado provisório sobre a condição da soja produzida por aqui. O documento frisa que ela é do ''tipo convencional''. No ano passado, a China comprou mais de 4 milhões de toneladas do produto nacional. A previsão é de que as exportações para aquele país cheguem a 5 milhões de toneladas em 2003.
''A discussão sobre a soja transgênica é interessante, mas a minha dúvida é em relação a mercado'', comentou Júlio César Meneguetti, de Ivaté (90 km a norte de Umuarama), um dos 28 integrantes do primeiro grupo da Faep a chegar a Argentina, no dia 6 de março. Outro grupo, de 25 pessoas, iniciou a viagem de oito dias em 7 de março. De Buenos Aires a Mendoza, na fronteira com o Chile, o grupo passou por quatro cidades, Pergamino e Venado Tuerto, ambas na província de Buenos Aires; Rio Cuarto (Córdoba) e São Luis (São Luis). A comitiva era formada por representantes de sindicatos rurais, da Faep, do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), do Serviço de Apoio à Pequena Empresa (Sebrae) e jornalistas convidados.
A economista da Faep, Gilda Borges, lembrou que a redução de custos de produção da soja signica mais lucro para o agricultor, mas observou que o produtor argentino leva desvantagem na hora de pagar os 21% de taxa sobre a exportação. Em compensação, porém, tem baixo custo de logística e de taxa portuária.
''Não vi novidades em termos de tecnologia'', avaliou Antônio Oshiro, produtor de soja de Itambaracá (46 km a leste de Cornélio Procópio). Para Oshiro, que já foi bi-campeão brasileiro na produção de algodão, em 1995 e 1996, os argentinos têm a vantagem do baixo custo porque encontram nos pampas uma terra extremamente fértil.
Da viagem, Oshiro trouxe para o Brasil inspiração para uma nova sistemática que pretende implantar em sua propriedade. Ele pensa em revezar soja e pecuária e plantar milho para alimentar o gado. (A jornalista viajou à Argentina a convite da Faep).


