‘Dança’ entre abelhas e soja impulsiona a produtividade no campo
Pesquisa científica, boas práticas agrícolas e articulação entre produtores e apicultores redefinem uma relação histórica no campo e geram ganhos
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de dezembro de 2025
Pesquisa científica, boas práticas agrícolas e articulação entre produtores e apicultores redefinem uma relação histórica no campo e geram ganhos

“Quando a gente coloca soja e abelha ao mesmo tempo na mesma frase, qual o primeiro questionamento que vem: soja e abelha, vai dar certo? A gente tem os dois aqui e está funcionando!”, conta Lígia Jung, engenheira agrônoma e produtora rural, em sua residência no meio de uma paisagem dominada pela soja. A propriedade rural de 135 hectares em Maringá (Noroeste) abriga, há décadas, lavouras e colmeias que convivem sem conflitos e com ganhos mútuos.
A história começa em 1948, quando a área ainda era mata fechada e o café dominava a economia local. Foi justamente a dificuldade de acesso ao açúcar que levou à introdução das primeiras colmeias no sítio. “A abelha chegou para resolver um problema básico da casa”, relembra Antônio Jung, proprietário rural e pai de Lígia, que começou a lidar com apicultura ainda criança.

Com a geada de 1975 e a substituição do café pela soja, as abelhas permaneceram. O que parecia improvável se mostrou possível: mesmo cercadas por lavouras, as colmeias continuaram produzindo mel, “e de alta qualidade”, testemunham pai e filha. E com o passar do tempo, a família passou a perceber algo além da produção apícola: áreas próximas aos apiários apresentavam aumento consistente na produtividade da soja. Sem medições formais no início, o ganho era percebido na prática, durante a colheita. “A máquina precisava reduzir a velocidade porque a lavoura pesava mais”, conta Lígia.
A experiência da família Jung, ao longo de mais de 50 anos, corrobora para desmontar a ideia de que a sojicultura é incompatível com a apicultura e se tornou tema de estudos para pesquisadores da UEM (Universidade Estadual de Maringá).

Segundo o professor do Departamento de Zootecnia, Vagner de Alencar Arnaut de Toledo, essa convivência impulsionou o avanço no conhecimento sobre o comportamento das abelhas e foi o primeiro passo para outro estudo, conduzido pela Embrapa Soja com apoio da BASF.

Entre as safras 2022/23 e 2024/25, o estudo acompanhou lavouras de soja em regiões estratégicas do país, como Maringá, São Gabriel (RS) e Dourados (MS). O objetivo era medir, com dados, se a presença de abelhas poderia coexistir com a produção em larga escala.
O pesquisador da Embrapa Soja, Décio Gazzoni, confirma o impacto da polinização na produtividade da soja é consistente e mensurável. “Um aumento de 10% a 12% na produtividade é perfeitamente factível em condições reais de campo”, afirma.
Para Gazzoni, o número ganha ainda mais relevância quando comparado a dados internacionais. “Nos Estados Unidos, a contribuição média das abelhas para a soja gira em torno de 5%. Aqui, estamos falando do dobro disso.”
O ganho representa renda líquida para o produtor. “O custo do sistema de produção não muda. Se você colhe cinco ou seis sacas a mais por hectare, isso entra direto na margem do agricultor.”
Em termos econômicos, esse incremento pode representar mais de 20% de na produção de uma lavoura, estimado em cerca de 30 sacas por hectare.

Resultados ainda mais expressivos, de até 15% ou 20%, são possíveis, mas dependem de fatores agronômicos ideais, como clima adequado, solo bem corrigido e semeadura no momento correto.
Do ponto de vista biológico, a presença dos polinizadores altera significativamente o desempenho da planta. Sem abelhas, o abortamento das flores - fenômeno fisiológico das plantas em que flores já formadas caem antes de se transformarem em frutos - pode chegar a 80% ou 82%. “Com a polinização, esse índice cai para algo entre 50% e 55%”, detalha.
Além disso, há melhora na qualidade da produção. “A polinização aumenta a gramagem da semente e praticamente elimina as vagens chochas", complementa o pesquisador que também destaca o papel central do MIP (Manejo Integrado de Pragas), “Com o MIP, é possível reduzir pela metade as aplicações iniciais de inseticidas”.
Na prática, isso significa passar de três aplicações para uma ou duas e atrasar a primeira aplicação em até 30 dias, atravessando o período de florescimento da soja. “Isso é fundamental, porque a pulverização ocorre quando as abelhas já deixaram a lavoura.”
O resultado do estudo foi reunido na cartilha 'Boas Práticas para Integração entre Apicultura e Sojicultura', elaborada com apoio do Senar.
Maurício do Carmo Fernandes, gerente de Stewardship e Sustentabilidade da BASF Soluções para Agricultura, destaca que a iniciativa comprova a viabilidade de um modelo produtivo que integra eficiência econômica e responsabilidade ambiental.
“Este projeto mostra que é possível aliar produtividade agrícola e conservação ambiental, desde que haja planejamento, boas práticas e diálogo entre os diferentes atores do campo”, afirma.

Segundo Fernandes, o incentivo a protocolos técnicos adequados e à comunicação entre sojicultores e apicultores vai além da prevenção de conflitos.
“Quando promovemos boas práticas e fortalecemos o diálogo, não estamos apenas protegendo as abelhas. Estamos gerando impacto positivo direto na biodiversidade e fortalecendo a economia local.”
Com essas práticas, a lavoura de soja se transforma em um pasto apícola de alta performance. A produtividade dos apiários pode triplicar durante a floração da soja.
Apicultores parceiros do projeto relataram colheitas que superaram 50 kg de mel por colmeia, mais que o dobro da média nacional, inferior a 20 kg por ano.
TENSÃO INVISÍVEL
Antes que a solução da convivência fosse sistematizada, a relação entre sojicultores e apicultores era marcada por desconfiança e prejuízos.
Lígia Jung lamenta que a percepção pública frequentemente rotule o produtor de soja de forma negativa. “Essa polarização dificulta o diálogo necessário para evitar a mortalidade das colmeias.”

Apesar da convivência histórica sem problemas na propriedade da família Jung, conflitos começaram a surgir nos anos 2000, com o aumento das pulverizações aéreas.
Em 2009, uma aplicação irregular em área vizinha provocou a morte de mais da metade das colmeias da família Jung. Em vez de judicializar o conflito, a família passou a atuar na conscientização de produtores, técnicos e instituições.

Com diálogo junto ao Ministério Público, IDR-Paraná e Embrapa, práticas inadequadas foram revistas. Pulverizações aéreas foram substituídas por equipamentos terrestres, e o MIP reduziu drasticamente as intervenções químicas.
O avanço das pesquisas também mudou a percepção do mercado. Durante anos, o mel era vendido como silvestre. Hoje, consumidores procuram especificamente o mel de soja, reconhecido pelo sabor suave e pela qualidade comprovada.
Atualmente, cerca de 70% a 80% da produção de mel da propriedade tem origem na florada da soja.
HORÁRIO DE OURO
A convivência entre soja e abelhas se viabiliza por meio de um protocolo de boas práticas que corrige falhas históricas de manejo e comunicação no campo.

O Manejo Integrado de Pragas reduz aplicações desnecessárias e permite postergar o uso de inseticidas para depois do período de florescimento da soja.
O ponto central dessas medidas é a chamada “hora de ouro”. Estudos indicam que as abelhas visitam a soja com maior intensidade entre 8h e 14h.
Por isso, a recomendação é realizar pulverizações no fim da tarde ou à noite, quando os polinizadores já não estão na lavoura.
O protocolo também prevê comunicação prévia. Produtores devem avisar os apicultores com, no mínimo, 48 horas de antecedência sobre pulverizações, incluindo todos em um raio de até três quilômetros.
Matemática alada
Para entender por que a integração entre sojicultura e apicultura funciona e porque a morte das abelhas representa uma perda produtiva e econômica complexa é preciso observar a biologia desses insetos. Segundo o professor de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Vagner de Alencar Arnaut de Toledo, a base dos ganhos agrícolas associados à presença das abelhas está em um comportamento instintivo descrito pela ciência na década de 1940: a chamada dança das abelhas.

A descoberta coube ao zoólogo austro-alemão Karl von Frisch, que decodificou um padrão de movimentos aparentemente caótico dentro da colmeia. O que ele revelou foi um sistema sofisticado de comunicação, baseado em princípios matemáticos e astronômicos. A dança funciona como uma equação em movimento, capaz de indicar direção, distância e qualidade das fontes de alimento. A constatação surpreendeu a comunidade científica ao demonstrar que insetos utilizam mecanismos de cálculo e orientação antes atribuídos apenas a espécies com cérebros mais complexos.
Na prática, quando uma abelha operária encontra uma fonte abundante de néctar como uma lavoura de soja em plena floração ela retorna à colmeia e executa uma sequência de movimentos em forma de oito. A coreografia transmite informações precisas às demais operárias. O ângulo do corpo em relação à vertical indica a direção da fonte de alimento com base na posição do sol. Se a dança aponta para cima, o voo deve seguir em direção ao sol; se aponta para baixo, na direção oposta.

A distância também é codificada no movimento. A velocidade e a inclinação do corpo indicam o quão longe está o recurso. Quanto mais rápido o deslocamento, maior a distância. Nesse processo, a abelha considera variáveis como tempo de voo e até a influência do vento, permitindo que o enxame otimize o gasto energético na busca por alimento.
Esse mecanismo ajuda a explicar a forte atração das abelhas pela soja. Em muitas regiões, a cultura oferece néctar abundante em um período do ano marcado pelo vazio de forragem natural. Ao visitar a lavoura, a abelha apenas responde ao comando biológico transmitido pela dança: buscar energia onde ela está disponível. O pico dessa atividade ocorre, em geral, entre o fim da manhã e o início da tarde, quando a presença dos insetos na cultura é mais intensa.

É justamente nesse intervalo que a biologia das abelhas se cruza de forma crítica com a tecnologia agrícola. Pulverizações realizadas nesse horário interrompem um sistema de comunicação vital para a colmeia e ampliam o risco de contaminação dos polinizadores. Por isso, o ajuste do horário de aplicação de defensivos se tornou um dos pilares da convivência entre agricultura e apicultura.
A organização social da colmeia acrescenta outra camada de complexidade a esse equilíbrio. Insetos sociais como as abelhas apresentam um comportamento altruísta extremo. Indivíduos contaminados por substâncias estranhas ou doentes tendem a se afastar da colmeia ou são barrados pelas abelhas guardas, em um mecanismo conhecido como comportamento higiênico. O objetivo é proteger o enxame, mesmo que isso signifique a morte do indivíduo fora da colmeia.
Com o entendimento da dança e da estrutura social das abelhas ligados à integração entre sojicultura e apicultura, defendida pelo projeto, melhora a produtividade no campo.
E, para além de curiosidade cientifica, ganha o 'Conhecimento' que baseia-se justamente em aprender a interpretar sinais biológicos e ajustar práticas agricolas para torná-las sincronizadas com a defesa do meio ambiente.


Patrícia Maria Alves
Editor e Gerente de Produtos Digitais


