Em meio a apreensão dos produtores, preocupados com a alta dos custos de produção e preços pouco convidativos para a comercialização da próxima safra de inverno, a cultura do milho no Paraná mal se deu conta que viveu um ciclo anual que vai entrar para a História.

O volume recorde acumulado nas safras de verão e inverno - pela primeira vez o total superou as 20 milhões de toneladas - pode indicar o surgimento de uma nova liderança em breve na agricultura paranaense, ancorado numa forte demanda, resultado de fatores conjugados que facilitam a venda tanto no mercado interno quanto externo.

A soja manteve a liderança no ano passado, mas foi por pouco, com menos de um milhão de toneladas a mais. Impulsionada pela voracidade do mercado internacional, o grão de origem asiática lidera o placar anual desde 2015, com apenas duas exceções, quando houve quebra na safra por déficit hídrico, em 2019 e 2022.

Do ponto de vista histórico, o grão de origem norte-americana sempre foi o grande símbolo do alto grau de desenvolvimento da agricultura no estado, com um incremento na produtividade que saltou de 1,68 tonelada por hectare em 1974 para mais de seis toneladas por hectare 40 anos depois, quando a safra de inverno passou a ser a mais importante no ano, um fato que curiosamente está relacionado à rápida expansão da soja após a decadência do café e a adoção da rotação de culturas.

E é exatamente a tecnologia e a forte demanda que pode fazer o milho voltar a ser o grão mais produzido no Estado, afirmam os especialistas.

“A produtividade do milho é maior até pela característica da planta. Dados mais recentes mostram que é 80% a mais. Pelo avanço tecnológico, esta diferença tem aumentado. A planta tem ficado mais resistente à intempéries. Esta melhora na produtividade também ocorre com a soja, mas num ritmo muito mais lento. É exatamente por isso que acreditamos que em breve isso pode acontecer, embora a soja ainda se mantenha, com grande folga, como a cultura com mais área plantada”, explica Marcelo Garrido, especialista do Deral.

Novos fatores

A demanda interna aquecida e a facilidade de venda é o grande motor para a expansão constante na produção de milho, que duplicou seu patamar de produção em 30 anos. O crescimento exponencial neste século do consumo de ração nas cadeias do frango, do porco e da tilápia não é a única explicação para a previsão do mercado. O Paraná também tem se destacado nas exportações, com embarques anuais na ordem de 4 milhões de toneladas, com destaque para o atendimento ao mercado do Irã, responsável por mais da metade das compras. Nos próximos anos, o estado deve dar um salto também na destinação do cereal para a produção de etanol, com plantas industriais exclusivas que serão instaladas em Campo Mourão e na Lapa, além da adaptação das destilarias de álcool na região de Maringá.

“Mesmo com a demanda mais fraca na China pelo milho brasileiro, as compras do Oriente Médio, principalmente do Irã estão compensando esta perda. E isso está ocorrendo porque o custo do frete para o fornecedor tradicional do segundo semestre, a Ucrânia, está mais alto por causa do risco causado pela guerra”, explica Arthur Martinez, trader de commodities agrícolas. “A infraestrutura e localização fazem do Paraná um ótimo competidor global”, lembra.

De olho no ´timing´

Martinez explica que a competição pelo milho produzido no Estado vai se acirrar com a nova demanda das destilarias e que isso obriga a cadeia a desenvolver novas estratégias comerciais. “O setor de proteína não pode ficar desassistido e as destilarias têm um alto custo que não permite inatividade, além do que a internacionalização seguirá sendo atraente na venda. A disputa pelo milho vai exigir monitoramento constante do mercado, posicionamento estratégico e timing correto”.

Apesar dessa perspectiva positiva, o cultivo de milho, particularmente a crucial safra de inverno (segunda safra), as fontes ouvidas pela Folha alertam que a atividade seguirá acompanhada pelas sombras da incerteza.

Os ecos da crise climática, a estreita janela de plantio (que depende da colheita oportuna da safra de soja anterior) e os fatores externos, como a singular instabilidade geopolítica atual, as dinâmicas erráticas do comércio global e as imprevisíveis questões sanitárias, formam um respeitável time de inimigos para a propalada ascensão do milho no Estado.

Cenário de 2026

A pedido da Folha, os engenheiros Shauff, pai e filho que são referências para o mercado e para a inteligência agronômica, fizeram suas ponderações sobre o momento do milho. João Paulo, o pai, explica os riscos de qualquer previsão, elucubrando sobre a próxima safra de inverno. “Vai ter menos milho porque tivemos atrasos no plantio de soja, principalmente no Norte do Estado. A chuva demorou a chegar e quando chegou veio muito agressiva, exigindo até replantio. Agora, a lavoura de soja está muito boa, mas com delay em relação ao ano passado. Isso vai limitar o plantio do milho lá na frente e aumentar o risco. O produtor vai entrar em abril plantando, o que é uma loucura, uma roleta russa. A de verão eu sei que vai ser boa porque as lavouras vão muito bem. É tocada por gente que tem vocação técnica, com experiência. O milho de inverno é diferente, é mercado, é busca por liquidez”.

Soja rege a produção

Para Lucas, o filho, o milho só tem este potencial de ser líder em volume por conta da segunda safra, a de inverno. “Pode ser que o milho supere a soja em volume, por causa da produtividade, que é o dobro. Mas a grande maioria dos produtores ainda prefere a soja como carro-chefe da propriedade. O milho de inverno depende do plantio da soja, se ela foi numa época boa e se não se perder a janela de plantio”, afirma. “Aliás, a soja mudou a agricultura porque tornou o milho de inverno um fenômeno a partir do momento em que as cultivares de soja passaram a ser de crescimento indeterminado. Porque mesmo você plantando a soja em setembro, você atinge o estímulo para o florescimento e a planta continua crescendo, o que não acontecia antes”, esclarece o agrônomo. “A segunda safra de milho se estabeleceu por causa desta mudança no manejo da soja. Se eu tenho condição de plantar a soja cedo e também colher cedo, eu planto milho depois, uma área com potencial muito grande. Sem condição climática para fazer este plantio precoce da soja, eu bloqueio muita área para o milho. Então o que sempre vai nortear os resultados anuais das safras de milho vai ser sempre a safra da soja”, explica, acrescentando o exemplo de 2021, quando a chuva chegou tarde para plantar a soja, postergando a safra de milho, que sofreu com as geadas. Naquele ano, o acumulado colhido de milho foi de apenas 9,3 milhões, o pior resultado do século 21.

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