TRIGO
Cultura de risco e alto custo
Marcos NegriniO trigo vem saindo de áreas tradicionais, por causa do custo e do baixo retornoOs agricultores estão trocando o trigo pelo milho safrinhaNa região de Maringá a área tem se mantido estável, após uma queda significativa
Marcos Zanatta
De Maringá
O trigo tem resistindo na região de Maringá, graças a agricultores que preferem a cultura na safra de inverno. Os técnicos da Emater e da Cooperativa de Cafeicultores e Agropecuaristas de Maringá (Cocamar) comprovam a manutenção da área nos últimos anos, sempre por causa de produtores insistentes. ‘‘Quem planta trigo na região é porque gosta da cultura ou atrasou o plantio de milho safrinha’’, afirma João Carlos Ruiz, técnico agropecuário em Floresta, a 25 quilômetros de Maringá. Ele calcula que a área de plantio no município, um dos que mais plantavam trigo na região, mantém-se em 2.500 hectares nos últimos três anos. ‘‘Pelo menos’’, emenda.
O principal motivo que tem afastado os produtores do trigo, segundo Ruiz, é o resultado financeiro. Ele calcula que a produtividade média fique em torno de 100 a 110 sacas por alqueire, contra um custo de produção que pode chegar a 90 sacas. ‘‘A margem de lucro é muito pequena para o agricultor e esse é um dos riscos’’, diz. Outra observação do técnico é que normalmente o trigo apresenta muitos problemas durante as várias fases da lavoura. ‘‘Na safra atual o início foi problemático por causa do excesso de chuvas; agora está tudo indo bem, mas se chover a quebra é inevitável’’, afirma Ruiz.
A maior parte dos produtores de Floresta adiantam o plantio da soja para entrar com o milho safrinha. ‘‘O milho é mais seguro, e o agricultor quer uma lavoura mais fácil de lidar’’, afirma. No município de São Jorge do Ivaí, a 44 quilômetros de Maringá, o trigo continua perdendo espaço para outras lavouras de inverno. A área de plantio, que vinha se mantendo em 1.500 hectares nos últimos dois anos, agora caiu para 1.300 hectares. ‘‘Dependendo do resultado da safra deste ano, a tendência é de queda ainda maior para a próxima safra’’, afirma o técnico Valdir Brischiliaki, da Cocamar.
Preço desestimulanteO preço pago ao produtor, em torno de R$13,00 a saca de 60 quilos, é o principal motivo para a queda do interesse pelo trigo, confessa Brishiliaki. Ele diz que hoje a cotação ainda está ‘‘acima da média’’. Normalmente o preço cai com o início da colheita, programada para o final de agosto. Além do preço, o produtor tem reclamado das condições de clima, que nos últimos anos vem provocando queda na qualidade do grão. ‘‘O pessoal prefere não se aventurar, porque o trigo é muito arriscado’’, afirma. A maior parte dos agricultores que continuam no trigo em São Jorge do Ivaí é porque aplicam tecnologia ou têm propriedade em áreas ‘altas’, onde o clima ajuda a cultura.
Em Maringá, onde o trigo chegou a ocupar 18 mil hactares há alguns anos, hoje a área não chega a 5 mil hectares. ‘‘O principal problema é a comercialização’’, define o técnico da Emater local, Luiz Caetano Vicentini. Ele diz que existem outros obstáculos para o trigo na região, como o custo e a falta de qualidade do grão. ‘‘O milho safrinha, que tem menor risco e garantido bons resultados, acabou ainda mais com o trigo’’, afirma. Hoje, segundo Vicentini, a área só não é menor porque muitas propriedades entram no trigo para a rotação de cultura, ou para não deixar a terra ‘‘descoberta’’. Quando começa a colheita, e o preço cai, o produtor já se arrepende, garante.

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